Estou convencido de que estão equivocadas as discussões como fazem os teólogos, como Santo Agostinho, que definiu para a eternidade (até agora…) que o Bem é identificado como sendo Deus: Criador de todas as coisas que por ser Sumo Bem fez tudo bom. Sendo assim, o mal não vem de Deus, mas, da negação do mesmo. Porém, a bem da verdade, a raiz do mal encontra-se no livre-arbítrio da vontade do homem, que voluntariamente nega seu criador dentre outras coisas que me parecem mais importantes e que vou discutir aqui.
Ou como fazem os filósofos, como David Hume, um cético do século XVIII. Ele escreveu: “As velhas perguntas de Epicuro ainda não foram respondidas. [Deus] está disposto a impedir o mal, mas não é capaz? então ele é impotente. Ele é capaz, mas não tem vontade? então ele é malévolo. Ele é capaz e disposto? de onde vem o mal?” (Diálogos sobre a religião natural, Parte X, 1779).
Kant melhorou um pouco, ao abordar objetivamente o mal na sua obra A Religião nos Limites da Simples Razão, de 1793, e, para tal, apresenta-o em três níveis: o mal da fraqueza, o mal da impureza e a malignidade. No entanto, ele indica o conceito de um quarto nível que não seria possível, a saber, uma vontade diabólica.
Obviamente, estou falando de um dos dois principais tipos de mal: Mal moral – abrange os atos intencionais de seres humanos (como assassinato, estupro, etc.) Mal natural – Refere-se a desastres naturais (como fome, enchentes, etc.).
Os Males Naturais, porém, podem ser minimizados ou enfrentados havendo recursos para isto, que, também obviamente, acabam entrando na discussão que trago.
A verdadeira origem e talvez melhor definição é que a origem do mal está no livre arbítrio humano: ao conviver no mundo corporal o homem, ao invés de verificar antes de agir as consequências de seus atos, se entregou a certas paixões que deveriam ser usadas apenas como instrumentos de trabalho, instrumentos para sua sobrevivência.
Devo acrescentar que acho falsa a noção de que somos feitos de tal maneira que estas propensões corrompidas estão embutidas em nós, irremediavelmente, sendo o melhor exemplo a ideia do pecado original, como todo domingo na missa, todos os padres em todas as missas do mundo nos lembram há milhares de anos.
Acho que vem mais coisa de fora do que de dentro de nós e este é o objetivo deste post: examinar os contextos econômicos por trás de grandes males que nos assolaram recentemente, isto é, no século 20.
Em outras palavras, acho Sto Agostinho, David Hume, Kant, etc., fazendo a pergunta errada ou contextualizando na existência prévia de um Deus projetado nas nossas melhores expectativas e a realidade, que é como ela é e ainda temos que descobrir como é.
A partir daqui, defendo que o mal está mais enraizado na forma, ou no modelo econômico, em que conseguimos ou decidimos implementar e não em nós, estrangulados em uma realidade que não podemos mudar por nossos próprios meios.
Na ordem significativa de implementarmos como viver e sobreviver, o livre arbítrio é preponderante e, ao meu ver, tem seu custo na existência do mal. Penso ao contrário de David Hume, a existência do mal é mais expressão de uma condescendência de Deus em nos equiparar, ao menos em principio, a Ele (igualar, acho impossível), na expectativa de que O ajudemos na sua Divina Comédia. Digo isso no sentido que Dante Alighieri teve, isto é, à época em que Dante escreveu o poema os textos eram separados entre Comédia, obras dotadas de finais felizes, e Tragédias, com finais contrastantes aos das Comédias. Alias, no texto, vou apontar vários momentos trágicos que embutiram sequências de comédia, para os que criticam simploriamente as razões de Deus para permitir o mal.
Ou seja, ao fim do dia, o Bem prevalece sobre o mal.
A maioria concordaria que o maior surto do mal no século 20 encontrou expressão em um homem – Adolf Hitler. É claro que houveram outros exemplos aterrorizantes, entre eles Joseph Stalin na União Soviética e outros menos votados, porem igualmente aterrorizantes, mas servem para defendermos nosso ponto.
Eu não vejo, talvez por ignorância minha, ninguém associando a existência, ou o irrompimento do mal em surtos nas maiores proporções que se tem noticia, como no caso de Hitler e de Stalin, com a questão econômica, isto é, estes dois estavam tentando implementar modelos econômicos que tirariam seus países de uma situação econômica difícil, para a prosperidade, possibilitando a distribuição do bem para todos.
Modelos Econômicos do século 20
Quais os modelos econômicos que as nações ou povos mais desenvolvidos utilizaram no século 20? Falo da Europa, das Américas, com forte ênfase nos Estados Unidos, na Rússia e na China, principais expoentes de um dos dois modelos que foram usados: A interferência do Estado ou o laissez faire, que é deixar que o mercado de regule por si mesmo.
Estas duas possibilidades têm sua maior expressão na mente de três grandes pensadores, um filósofo, Karl Marx e dois economistas, John Maynard Keynes e Friedrich Hayek.
Keynes acreditava na interferência do Estado na Economia e Hayek acreditava no que hoje é conhecido como liberalismo, que embora aceite interferência do Estado, privilegia o livre comércio.
Vou deixar Marx de fora, porque não funcionou na URSS e, na China, foi suficientemente alterado para podermos afirmar que não aconteceu como ele queria e o que restou na China tem mais traços do capitalismo do que do comunismo.
O jornalista Nicholas Wapshott escreveu uma obra prima comparando Hayek com Keynes, (Keynes X Hayek) explicando em forma de um romance, ou um conto, como as idéias deles foram implementadas principalmente nos Estados Unidos e qual a influência disto nos eventos políticos, econômicos e sociais, nos Estados Unidos e na Europa. Especialmente com relação aos dois conflitos que foram a primeira e a segunda guerra mundiais.
Nota (RE Campos): A Internet permite acessar informações sobre biografias, lugares, locais, eventos, etc., que nem sempre existem em Português. Como vou traduzir para o Inglês, quem tiver curiosidade ou necessidade de saber detalhes, aconselho ler o texto em Inglês, que vai conter o máximo de referências possíveis, sendo que este texto em Português, vai limitar ao que existe em Português e, quando necessário, colocar em Inglês mesmo.
Fiz uma releitura desta obra, vou transcrever uma parte, reorganizar por mandatos presidenciais dos Estados Univos, sintetizar, às vezes deixar o texto mais leve, as idéias em dois momentos que Wapshott descreve magistralmente:
- O período que antecedeu e sucedeu à Primeira Guerra Mundial
- A ordem econômica instalada após a Segunda Guerra Mundial
E, ao final, listar males que trouxeram bens embutidos e dão ideia da sutileza do problema que grandes cabeças não perceberam como Deus age e fazem críticas ingênuas.
O período que antecedeu e sucedeu à Primeira Guerra Mundial
A 1a. Grande Guerra foi até o seu momento, a mais destrutiva da história. Marcou a entrada da alta tecnologia, com o bombardeio por aviões, tanques de guerra e metralhadoras, armas químicas, como gases, com alto poder de aniquilamento de seres humanos. Foi o fim da cavalaria, baioneta, da luta corpo a corpo com alguma nobreza eventual dando lugar à estupidez, beirando ao suicídio, como o famoso evento do general francês que ordenou uma carga de cavalaria contra uma bateria de metralhadoras.
Infelizmente está somente em Inglês, mas dá para entender com letreiro, e recomendo fortemente perder 8 minutos e entender o papel da cavalaria nas guerras e o porquê da estupidez de insistir com ela diante da tecnologia modera, no video Cavalry in WW1 – Between Tradition and Machine Gun Fire (Cavalaria na Primeira Guerra Mundial – Entre Tradição e Metralhadora)
Quando a metralhadora Maxim abria fogo a uma cadência de mais de 500 disparos por minuto, a tática dos soldados que marchavam e disparavam em linha se convertia em suicídio. Agora em diante o infante teria de correr e zigzagear, confiando na sua capacidade para escapar ao fogo adversário e cair sobre o inimigo. Quer dizer, passou a prevalecer a manobra e o fogo ao choque.
A luta ocorreu de um lado o conglomerado austríaco alemão e do outro os aliados, compreendendo a Grã Bretanha, França, Rússia e no final a entrada dos Estados Unidos.
A disputa se deu em função da posse de terras e acesso ao comércio mundial.
Depois de quatro anos, o saldo foi a submissão da Alemanha pela fome, com um saldo em 1918 de quase 10 milhões de soldados mortos, 8 milhões “desaparecidos”, 21 milhões feridos e 7 milhões de civis mortos.
Uma geração de jovens havia sido mutilada ou assassinada.
Contrariando as sugestões idealistas do Presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, que visava a paz, limitando os reparos a serem exigidos, com seus 14 pontos, os líderes britânicos, franceses e americanos, liderados pelo primeiro ministro francês Georges Clemenceau, vingativamente cobraram reparações paralisantes e impossíveis de serem pagas à Alemanha, principal remanescente da aliança derrotada.
Keynes apareceu pela primeira vez em grande medida, pela sua veemente condenação a esta atitude, com ataques irreverentes e retratos devastadores de Wilson e Clemenceau, em seu famoso livro As Consequências Econômicas da Paz, publicado alguns meses depois do nefando Tratado de Versailles, que se transformou em sensação mundial imediatamente.
Neste livro, Keynes simplesmente mostrou que estas pesadas reparações levariam à instabilidade, que traria extremismo político que poderiam detonar outra guerra, mundial, previsões arrepiantes que se tornariam realidade.
Antes disso, ainda desconhecido mundialmente, mas reconhecido pela sua competência, Keynes condenava a guerra abertamente, achando-a imoral, defendendo a ideia de que deveria cessar imediatamente, sem vencedores ou vencidos.
A única preocupação de Keynes era e sempre foi, como a economia poderia melhorar a vida das pessoas, especialmente pela existência e manutenção de emprêgo.
Segundo seu biógrafo, Robert Skidelsky, Keynes seguira junto com o Primeiro Ministro britânico Lloyd George para ajudá-lo nas negociações da Conferência de Paris de 1919 (Ver em Português: Tratado de Versalhes) como um ato de reparação pessoal, pela ajuda que ele dera na montagem da máquina de guerra britânica.
A idéia dos Aliados, cf documentação da época, era de que “a Alemanha compensasse todo o mal causado à população civilizada dos aliados e suas propriedades pela agressão da Alemanha por terra, mar e ar”, e deu corpo à ideia de Clemenceau, na sua obstinação de que as nações derrotadas pagassem pela destruição física e humana que haviam desencadeado.
Coisa impossível, pois quanto mais aumentavam a conta a ser paga, menos recursos sobravam para tornar viável qualquer pagamento. Sem mencionar que nações novas surgidas após o conflito, como a Hungria, Polônia e a Tcheco-Eslovakia, antigos membros do antigo Império Germânico, já haviam enviado seus excedentes para a capital do Império, para ajudar no esforço de guerra.
Este quadro criava uma ameaça de que se os Aliados não fizessem nada para permitir que as populações vencidas conseguissem sobreviver e atender às demandas, poderiam ir na direção da Rússia e o comunismo se espalharia pelo Ocidente.
Mesmo diante disso, os Aliados continuavam nas suas exigências criando condições propícias para os extremistas, sendo a maior e a pior delas a ascenção do Nazismo com Hitler no seu comando.
Não apenas pelo seu livro, mas por sua atitude, ele se transformou num campeão pacifista das nações subjugadas e Wapshott menciona o acordo que ele fez com o negociador chefe dos alemães, Dr. Carl Melchior, visando que suprimentos de comida pudessem chegar à Alemanha, no caso da marinha mercante alemã se rendesse.
Em Maio de 1918 Keynes fez um apelo em favor das mulheres e crianças da Áustria que estavam passando fome, descrevendo as assustadores e miseráveis condições que estavam, já tendo sido espantosamente punidos pela participação na guerra.
Keynes estava convicto e revelava a todos que as reparações se mostrariam desastrosas para qualquer perspectiva de paz permanente na Europa e escreveu ao Ministro da Fazenda britânico, Austen Chamberlain, que o primeiro ministro inglês “os estava levando para o pântano da destruição, pois a proposta desorganizaria a Europa economicamente e iria provocar a morte de milhões de pessoas.”
Neste estado de espirito que escreveu As Consequências Econômicas da Paz.
Além denunciar as manobras políticas dos negociadores, como a convocação de eleições gerais por Lloyd George, primeiro ministro britânico, no meio das negociações, para assegurar vitória do seu governo, ou a devolução da Alsácia Lorena, rica em carvão, e outras minas de carvão do Saar e Alta Silésia, que destruiriam a indústria alemã. Além disso, ele ridicularizou as personalidades dos participantes da Conferência diária mantida sob o comando do Presidente americano Woodrow Wilson.
Se acrescentarmos a entrega das minas de carvão com a entrega dos rios navegáveis, como o Reno para um organismo internacional, juntamente com a perda da frota mercante e grande parte do equipamento ferroviário e material rodante, Keynes achava que “o futuro industrial da Europa é negro e as perspectivas de uma revolução muito boas” e que o tratado “esfola a Alemanha viva” e que provaria ser “um dos atos mais ultrajantes de um vencedor cruel na história civilizada” cf escreveu no seu livro.
Quando eu, RE Campos, visitei a Alemanha a trabalho na década de 90, como pesquisador para melhoria da qualidade de ensino de Engenharia na maior Universidade do Brasil, a Universidade de São Paulo, e tentei conversar com as pessoas que interagi sobre a guerra, as atrocidades, etc., não tive sucesso. Além de que eu percebia que a idéia do genocídio praticado por Hitler não os envergonhava, na verdade, demonstraram indiferença, e eu não conseguia entender porque, na minha visão influenciada pela versão apresentada no Brasil pelos filmes americanos.
Hoje lendo o que acabo de sintetizar anteriormente, entendo por que.
Após o término da 1a Grande Guerra, Keynes iria ser o mais ouvido economista teórico em se tratando de dois problemas básicos da economia, as paridades das moedas, que os Britânicos queriam que fosse a de antes da guerra, e o efeito de inflação ou deflação associado com isso. Keynes “descobriu”, que era um erro a conversibilidade em ouro, pois “A conversibilidade ao ouro não vai alterar o fato de que o próprio valor do ouro depende da política dos bancos centrais” e que, ao associarem o valor da moeda com o “padrão ouro”, os preços domésticos podiam flutuar e não podiam ser controlados. Além de que, contrariando os economistas clássicos, a teoria do equilibrio entre dinheiro e preços, não garantia pleno emprego, outro grande problema dos economistas.
Sua maior “descoberta”, ou contribuição, que iria influenciar as políticas econômicas de todos os governos americanos a partir de Frank Delano Roosevelt até os dias atuais era que o pleno emprego, ou o nível de desemprego, poderia ser controlado pelos investimentos feitos pelo Estado, diretamente no controle da Economia.
Examino isso em detalhes pela pena de Wapshott, do ponto de vista atual, com ênfase na 2a. Guerra mundial.
O período que antecedeu e sucedeu à Segunda Guerra Mundial
Ou: A ordem econômica instalada após a Segunda Guerra Mundial
A “cara” do século 20, que surgiu a partir do término da 2a Grande Guerra, não apareceu de repente. Foi surgindo vagarosamente, com tentativas e erros, e com um evento marcante e sofrido que foi a quebra da bolsa em 1929, que provocou a Grande Depressão americana, que ecoou no mundo inteiro.
Os governos preferiam se proteger sob o laissez faire, e esperar que as forças de mercado agissem por si só, como previra Adam Smith, mas a realidade, na forma como entendida por Keynes, era outra. Ele afirmava que era uma heresia, para a época, porém, o laissez faire na prática é entregar o bem-estar público à empresa privada, sem controle e sem ajuda. Porém, “a empresa privada não está mais no controle – está sendo reprimida e ameaçada de muitos modos diferentes… E, se a empresa privada não está mais no controle, não podemos deixá-la sem ajuda”. Ele acrescentou que o laissez faire era espúrio, ilógico e havia sido ultrapassado pelos acontecimentos.
Ele fez uma palestra na Universidade de Oxford sob o título “O fim do laissez faire“
A análise dele começava com uma visão geral dos pensadores economistas desde o Iluminismo até os dias atuais e os contradisse na idéia de que o laissez faire era algo respeitável, natural, justo e inevitável. Alem era falsa a ideia de que “pelo funcionamento das leis naturais, indivíduos que perseguem o interesse próprio com esclarecimento e em condições de liberdade sempre tendem a promover o interesse geral.” Ou, em resumo, o bem público era o somatório dos interesses próprios individuais de todos os indivíduos combinados.
Em 1930 Keynes publicou Um Tratado sobre a Moeda ( A Treatise on Money). Neste Tratado, Keynes estabeleceu uma distinção entre poupança e investimento, argumentando que quando a poupança excede o investimento ocorrerá recessão. Assim, Keynes justificou que durante uma depressão a melhor política seria promover despesa e desencorajar a poupança.
Nesta obra Keynes propôs a ideia de que deveria ser formado um novo mecanismo para vincular todas as moedas, um “Banco Central Supranacional“, que iria se tornar realidade em Bretton Woods, em 1944, com uma taxa de câmbio fixa pra todas as moedas, eliminando a relação com o preço do ouro, que na realidade fixou-se ao preço do dólar. Este banco viria a ser o FMI (Fundo Monetário Internacional)
Ele criou a ideia de uma cesta com sessenta bens importantes comercializados internacionalmente que flutuasse anualmente até +/- 2% sobe o valor fixado. Ele previu que alguns países teriam dificuldade de manter esta nova paridade e nestes “casos especiais”, o Banco Central do pais em questão deveria promover um programa público de investimento doméstico na forma de obras públicas.
Estas ideias ele ja havia direcionado no ano anterior, para combater o desemprego rampante da Grã Bretanha, contrariando o Tesouro Britânico que declarou que “nada poderia ser feito para combater o desemprego”. Ele retrucou, na sua famosa frase: “Entramos num círculo vicioso. Não fazemos nada porque não temos dinheiro. Mas é precisamente porque não fazemos nada que não temos dinheiro.”
A idéia dele era assombrosamente simples: “Há trabalho para fazer, há homens para fazê-lo, porque não juntar os dois?”
A partir de 1930 ele trabalharia na sua obra clássica, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicado pela primeira vez em fevereiro de 1936. É considerado uma das mais importantes obras de literatura econômica, tendo lançado as bases conceituais da macroeconomia. Além do aspecto de incrementar o nascente estudo da macroeconomia, o livro também desafia conceitos tradicionais da Economia clássica, como a visão a longo prazo dos ciclos econômicos e o valor da política monetária e da política fiscal.
A quebra da bolsa de 1929 e a subsequente Depressão ofereceram solo fértil para a s ideias keynesianas. Haviam estados americanos em que 4 de 5 pessoas estavam desempregadas. O pais estava à beira de uma revolução civil.
Keynes escreveu uma carta aberta ao Pres. Roosevelt, publicada no NY Times em 31 de Dezembro de 1933, por sugestão do Prof. de Harvard Felix Frankfurter, que ele conhecera em Paris nas negociações de paz, escancarando uma porta que já estava aberta e criando clima no Senado americano em favor de grandes aumentos de obras públicas.
FD Roosevelt cedeu vagarosamente, respondendo a carta indiretamente via Felix Frankfurter informando que já estava gastando 20 vezes mais que no ano fiscal anterior e acabou se encontrando com Keynes no ano seguinte, em Maio de 1934, que culminou num relacionamento amistoso.
Os frutos não foram imediatos e evidentes, mas a intelligentsia econômica americana passou a acreditar, nas palavras de Walter Lipmann, numa conferencia em Harvard, que “o laissez faire está morto e o Estado moderno se tornou responsável pela economia moderna como um todo.”
Sem adotar oficialmente a economia keynesiana, Roosevelt gerou pelos gastos públicos um dos maiores deficits até então, chegando a R$6 bilhões de dólares em 1934.
Os arquitetos do New Deal de Roosevelt já haviam chegado à mesma conclusão que Keynes e também encontrou apoio entre grandes banqueiros, entre eles Marriner Eccles, que operava 26 bancos e outras grandes corporaçõe, que numa famosa audiência ao Senado americano em 1933 disse: “Não existe causa ou razão pra o desemprego, com sua resultante em pobreza e sofrimento, de um terço de nossa população.” E que o pleno emprego seria possível, apenas “dando poder de compra suficientemente adequado para capacitar as pessoas a obter os bens de consumo que nós, como nação, somos capazes de produzir.”
Roosevelt indicou Eccles para 1o.presidente do conselho do FED e ele por sua vez escolheu Lauchlin Currie como assistente, e Currie aparelhou o governo com economistas keynesianos, liderados por Paul Samuelson, e tomaram de assalto o imaginário dos responsáveis pela economia americana.
John Kenneth Galbraith, que teria papel preponderante a partir da guerra que ocorreria, estava entre os que entraram junto com este time, que compreendeu muito bem as ideias de Keynes e as colocaram em operação.
O efeito foi que o desemprego foi paulatinamente curado, saindo de um pico de 25% em 1933, em 1934 para 17% e em 1935 para os ainda intoleráveis 14,3%, sendo que a produção nacional em 1936 voltou aos níveis de 1929.
De 1930 a 2011, o Produto Doméstico Bruto (GDP), nos Estados Unidos, que é o tamanho da economia ajustada pela inflação e dividida pela populalção, aumentou 6 (seis) vezes.
E a realidade passou a exigir as ideias de Hayek, opostas às de Keynes, expostas no seu famos livro O Caminho da Servidão, que são examinadas a seguir no período moderno.
Keynes morreu num domingo de Páscoa, pela manhã, em 30 de Abril de 1946, e antes de vermos Sayek, vejamos o excelente relato de Nicholas Wapshott que transcrevo na integra sobre:
A era de Keynes
Três décadas de prosperidade americana inigualada, 1946-80
Em sua morte em 1946, Keynes foi celebrado com serviços fúnebres apropriados
a um herói. Suas cinzas foram espalhadas em Sussex Downs, próximo à sua
fazenda. Em um serviço memorial na Abadia de Westminster, o primeiro ministro Clement Attlee conduziu os pranteadores, que incluíam Lydia, sua esposa, os pais
idosos de Keynes, a maioria do gabinete, o embaixador americano John Winant,
assim como um punhado do Círculo de Bloomsbury, Duncan Grant, Vanessa
Bell, Clive Bell e Leonard Woolf. Os Estados Unidos lhe deram uma régia
despedida na Catedral Nacional, em Washington, D.C.
A morte de Keynes pouco retardou a marcha progressiva da revolução que
tomou seu nome. Sua motivação inicial para estudar o ciclo de negócios foi
reduzir o desemprego em massa da Grande Depressão, e The General Theory
oferecia aos governos um meio de evitar o desemprego. A ausência de Keynes, no
entanto, colocou a revolução nas mãos dos keynesianos. Eles não seriam mais
moderados pela sabedoria dele. A defasagem entre o que Keynes pretendia e o
que os keynesianos fizeram em seu nome tornou-se maior. Para alguns, como
Hayek, Keynes havia desatrelado uma geração de economistas negligentes.
Como disse Alan Peacock, jovem economista da London School of Economics,
Keynes foi o “Kerensky da Revolução Keynesiana”, um líder moderado posto
de lado por revolucionários mais agressivos.
Na Grã-Bretanha, as reformas keynesianas receberam um empurrão de Attlee,
que, como primeiro-ministro substituto durante a guerra, recebeu mais ou
menos carta branca para administrar as políticas domésticas enquanto Winston
Churchill conduzia a guerra. De acordo com Martin Gilbert, biógrafo de
Churchill, “o discurso do orçamento da coalizão de guerra de 1942 era
inteiramente keynesiano… o uso da renda nacional e as estimativas de gastos em
relação à formulação do orçamento foram um grande evento na história da
aplicação da economia à formulação de políticas”. As medidas-chave eram um
Estado do bem-estar financiado pelos contribuintes, e o emprego pleno era uma
meta nacional. Ambos eram trabalho de William Beveridge, o outro empregador
de Hayek na LSE que acreditava que “a derradeira responsabilidade… criar
demanda para todo trabalhador à procura de emprego, deve ser tomada pelo
Estado”.
Que o keynesianismo foi defendido por um de seus primeiros benfeitores não
passou despercebido a Hayek, que sempre teve baixa opinião de Beveridge.
“Nunca encontrei um homem conhecido como economista que entendesse tão
pouco de economia”, recordou Hayek. O problema com Beveridge era que ele
carecia de quaisquer princípios duradouros. “Era o tipo de advogado de tribunal
que prepararia e daria uma declaração, falaria esplendidamente e cinco minutos
depois esqueceria tudo”, disse Hayek.
Mais penoso para Hayek, talvez, tenha sido que o secretário de Beveridge para
o Beveridge Report — pressagiando o seguro social nacionalizado, o Serviço
Nacional de Saúde e o pleno emprego como política nacional — tenha sido o
aluno-estrela de Hayek, Nicholas Kaldor. Hayek admitiu, com irritação, que
“Kaldor, por meio do Beveridge Report, fez mais para propagar o pensamento
keynesiano que quase qualquer outra pessoa”.
A noção de pleno emprego como responsabilidade primária do governo não
estava restrita à Grã-Bretanha. O premiê trabalhista da Austrália John Curtin,
que foi ao memorial de Keynes em Londres, introduziu, em 1945, o “Pleno
Emprego na Austrália”, que instruía o governo a encontrar emprego para todo e
qualquer indivíduo capaz de trabalhar. No mesmo ano, os que esboçavam o
texto da Carta das Nações Unidas incluíram o compromisso de que todos os
governos deveriam esforçar-se por “padrões mais altos de vida, pleno emprego e
condições de progresso social e econômico”. As Nações Unidas deram um passo
adiante, em 1948, quando declararam que “todo e cada indivíduo tem o direito
de trabalhar, direito à livre escolha do emprego, a condições de trabalho justas e
favoráveis e à proteção contra o desemprego”.
A Europa dilacerada pela guerra tornou-se um laboratório do keynesianismo.
Com os russos na soleira da porta da Europa Ocidental, os Estados Unidos
consideraram que as lições de Keynes em The Economic Consequences of the Peace
deviam ser tomadas sem limitações: as precondições para o extremismo não
deveriam ter permissão para se desenvolver. Em vez de punir os derrotados com
a pobreza, os contribuintes americanos os ajudaram a se tornar prósperos por
meio do Plano Marshall. Que Alemanha, Japão e Itália deviam, simplesmente,
ser ajudados a retornar ao livre mercado não foi cogitado. Em 1946, o sumo
sacerdote do keynesianismo, John Kenneth Galbraith, se tornou conselheiro do
Departamento de Estado sobre política econômica nos países ocupados.
Nos Estados Unidos, o keynesianismo também estava em marcha. Em 1943,
a Diretoria de Planejamento de Recursos Nacionais, da era do New Deal,
divulgou uma “Nova Carta de Direitos” para “promover e manter um alto nível
de produção e consumo nacional por meio de todas as medidas apropriadas”.
No discurso sobre o Estado da União de 1944, Roosevelt lançou “uma segunda
Carta de Direitos”, que garantia “o direito à proteção adequada contra os medos
econômicos da velhice, doença, do acidente e desemprego”. Em janeiro de
1945, o senador James Murray, democrata de Montana, apresentou um
projeto de lei de Pleno Emprego, esboçado com a ajuda de Alvin Hansen, o
“Keynes americano”, e baseado nas ideias do economista do New Deal Leon H.
Keyserling em seu ensaio de 1944 “The American Economic Goal”.
O projeto de lei era quase como um curso de introdução a Keynes. Declarava
que “a empresa privada, deixada aos seus próprios recursos, não pode prover
pleno emprego e não pode eliminar o periódico desemprego em massa e as
depressões econômicas”, que “todos os americanos aptos a trabalhar e
desejando trabalhar têm direito a uma oportunidade de emprego útil,
remunerado, regular e de tempo integral” e que o governo federal devia “fornecer
o volume de investimento e gastos federais que possam ser necessários… para
assegurar a continuidade do pleno emprego”. Não havia confiança em que o
senador de Missouri Harry Truman — baixo, amigável, confiante, tocador de
piano, que sucedeu Roosevelt como presidente em 12 de abril de 1945 —
obedeceria a uma instrução do Congresso, então o ramo executivo foi
direcionado a submeter um orçamento anual com a previsão do produto
necessário para gerar pleno emprego, assim como estimar o produto da
economia se não houvesse estímulo federal. O presidente, então, teria que
propor uma legislação de “finanças compensatórias”, que iria tanto estimular a
economia por meio de gasto deficitário ou, no caso de escassez de mão de obra,
reduzir o gasto para deter o excesso de demanda. A administração da economia
americana devia ser supervisionada pelo recém-criado Conselho de Consultores
Econômicos, ligado ao Comitê Econômico Conjunto do Congresso. Como as
Nações Unidas, o projeto de lei considerava o pleno emprego um direito
humano básico.
Os keynesianos estavam deliciados. “A memória infeliz de uma década de
cerca de 10 milhões de desempregados ainda não foi apagada”, escreveu o
economista do MIT Seymour E. Harris, “e os efeitos da redução, já iniciada, dos
US$ 75 bilhões anuais de gastos do governo federal com a guerra dizem respeito
a todos nós”. Ele predisse uma perda na década seguinte de até 62 milhões de
empregos. “Uma economia desgovernada é capaz de suportar, no mínimo, 50%
mais consumo e, talvez, cinco vezes mais investimento do que existia nos anos
1930, a despeito da pesada carga de impostos?”, perguntou.
Os keynesianos não deixavam de ter críticos. O amigo de Hayek em Harvard,
Gottfried Haberler, apontou uma falha capital no projeto de lei. “O perigo é…
que as políticas em termos de gasto agregado exagerem”, escreveu. “Se os
desempregados estiverem concentrados em certas áreas e setores em ‘depressão’,
enquanto existe pleno emprego em outro lugar, um aumento geral do gasto só
serviria para empurrar os preços para cima na área de pleno emprego, sem ter
muito efeito nos setores deprimidos. Então, o paradoxo de depressão e
desemprego em meio à inflação seria experimentado.” Trinta anos se passariam
antes que se comprovasse que Haberler estava certo.
Oponentes do projeto de lei foram desafiados a barrar um projeto popular e
empregaram argumentos que seguiram de perto as perenes objeções aos remédios
de Keynes. Os ciclos econômicos e as depressões que continham eram
fenômenos naturais a refletir a atividade legítima dos negócios e não deveriam,
portanto, sofrer legislação contrária. O pleno emprego era uma fantasia porque
algum desemprego era essencial enquanto os trabalhadores mudavam de um
empregador para outro. Mexer com o mercado de emprego terminaria em
deslocamentos corruptores. Opositores argumentaram adicionalmente que não
existiam medidas econômicas acuradas para calcular corretamente níveis futuros
de emprego e estimular a economia apropriadamente. Também objetaram a
tornar o emprego um direito humano: isso levaria à desilusão, na medida em que
os americanos viessem a esperar algo que nenhuma administração poderia
proporcionar.
Conservadores no Congresso asseguraram considerável abrandamento do
projeto até Truman transformá-lo em lei, em fevereiro de 1946. O título foi
mudado de “Lei do Pleno Emprego” para simplesmente “Lei do Emprego”. O
“direito” e a “prerrogativa” do emprego tornaram-se “responsabilidade do
governo federal… promover o máximo de emprego”. A demanda de que “o
presidente deve encaminhar ao Congresso… um programa geral… para assegurar
a continuação do pleno emprego” tornou-se uma vaga intenção de manter o
pleno emprego. E o orçamento anual para criação de empregos foi rebaixado
para o menos impositivo “Relatório Econômico do Presidente”.
Apesar das concessões e derrotas, os keynesianos acreditavam que a nova lei
serviria ao seu objetivo. Ela fazia o ramo executivo do governo assumir
responsabilidade pela economia. Pela primeira vez, o governo assumia o direito
de administrar a economia, ampliando poderes executivos muito além dos
deveres constitucionais existentes para controlar a moeda e o comércio. Nos
trinta anos seguintes, administrações de ambos os tipos levaram seus novos
poderes ao limite, manipulando a economia por meio dos impostos e de medidas
similares em uma tentativa de maximizar a prosperidade e conseguir a reeleição.
A macroeconomia, o novo ramo da “ciência sombria” inadvertidamente fundado
por Keynes, tornou-se um instrumento oficial do governo dos Estados Unidos.
Foi nessa época que os termos “microeconomia” e “macroeconomia” foram
usados pela primeira vez: a microeconomia era o estudo dos elementos
individuais de uma economia; a macroeconomia estudava a economia como um
todo.
Truman tinha pouco interesse em economia e pouco tempo para economistas. Ele brincava que gostaria de conhecer um economista com um braço só porque assim não ouviria “de um lado, isso; de outro, aquilo”. Era alheio à bifurcação na estrada que as teorias concorrentes de Keynes e Hayek representavam. Não compreendia a importância da Lei do Emprego, nem os novos organismos que ela criava. Quando apontou o primeiro presidente do Conselho de Consultores Econômicos, ignorou a óbvia pretensão do keynesiano Alvin Hansen em favor de Edwin Nourse, um economista do Instituto Brookings. “Truman era um apoiador formal do projeto de Lei do Pleno Emprego, proposto por Murray, e do Conselho e escreveu uma carta de genuíno endosso quando o projeto foi aprovado, mas não sabia do que se tratava”, lembrou Nourse. “Isso estava além de seu alcance intelectual.” Mesmo assim, o presidente ficou feliz por receber o crédito pelo fato de todo americano ter um emprego. Em 1947, na mensagem sobre o Estado da União ele se gabou do “praticamente pleno emprego”.
O reinado de Nourse não durou muito. Seu sucessor em 1949 foi Leon Keyserling, arquiteto da Lei do Emprego e um dos elementos mais importantes do New Deal que acreditava ferventemente em planejar para manter alto crescimento e pleno emprego. Truman ficou com a corrente keynesiana, embora fosse a favor do orçamento equilibrado, e pôs em marcha uma série de profundos cortes na defesa para financiar os programas domésticos. Ele disse a Keyserling: “Leon, você é o maior convencedor que já conheci, mas ninguém jamais me convencerá de que o governo possa gastar um só dólar que não tenha recebido. Sou apenas um caipira.” A guerra coreana deu um bom pretexto para os keynesianos retomarem os gastos públicos por meio do Departamento de Defesa — uma tendência que continuaria por décadas.
O pensamento keynesiano recebeu um empurrão em 1948 com a publicação
por Paul Samuelson, um estudante de Hansen em Harvard e professor no MIT,
de Economics: An Introductory Analysis, que se tornaria a bíblia keynesiana. Nas
primeiras edições, Samuelson ignorou a economia ortodoxa; descreveu apenas
duas opções: “socialismo” e keynesianismo. Nem Mises, nem Hayek, nem a
Escola Austríaca justificaram uma menção. Nos sessenta anos seguintes, 40
milhões de exemplares foram vendidos em mais de 40 idiomas, assegurando que
o keynesianismo se tornasse a nova ortodoxia do mundo não comunista. Onde
Keynes lia Alfred Marshall, os keynesianos liam, e depois ensinavam, Samuelson.
“Não me incomodo com quem escreve as leis de um país”, disse Samuelson, “se
puder escrever seus compêndios econômicos.”
Dwight D. Eisenhower
O sucessor republicano de Truman, o líder das forças Aliadas que derrotaram
Hitler, Dwight D. “Ike” Eisenhower, era um conservador que duvidava da
sabedoria de muitas receitas keynesianas. Como Hayek, temia mais a inflação do
que o desemprego. Mas não havia volta aos velhos dias de deixar a economia
autoadministrar-se. De acordo com John W. Sloan, professor de ciência política
de Houston, o ex-general de cinco estrelas Ike “era quem determinava a política
econômica de sua administração” e estava “constantemente atento e era
frequentemente afirmativo nessa área da política”. Eisenhower dependia de
Arthur Burns, especialista em ciclos econômicos nascido na Áustria e
presidente de seu Conselho de Consultores Econômicos, que revisou
substancialmente a posição conservadora em administração macroeconômica
keynesiana. “Apenas uma geração atrás era visão típica de economistas e outros
cidadãos que se devia permitir que as tempestades de depressão nos negócios
acabassem por si mesmas, com pequena ou nenhuma interferência por parte do
governo”, disse. “Hoje, existe um substancial acordo entre os americanos de que
o governo federal não pode permanecer indiferente ao que acontece na economia
privada, que o governo deve esforçar-se para fomentar o crescimento da
economia e que o governo tem responsabilidade definida de fazer tudo o que
pode para prevenir depressões.” Fiel à sua palavra, na primeira recessão de
Eisenhower em 1954, quando a Guerra da Coreia terminou, permitiu que cortes
nos impostos de US$ 7 bilhões fossem feitos, apesar das lamúrias frequentes dos
conservadores, levando o orçamento federal ao déficit. Richard Parker, biógrafo
de Galbraith, sugere que “Ike pode ter sido o primeiro presidente da República
keynesiano”.
Com a administração Eisenhower chegando ao fim, a revista Life descreveu a
política econômica como “praticamente, um modelo de livro-texto de como
favorecer e estimular o sistema de livre mercado”.
O keynesianismo era construído dentro do governo em uma abordagem apelidada de “keynesianismo empresarial”, garantindo que as três breves recessões, de 1953-54, 1957-58 e 1958-59, foram minimizadas pelo uso de “estabilizadores fiscais automáticos”, instrumentos como pagamento de seguro-desemprego e assistência social que reforçavam o gasto governamental quando a economia fraquejava; e, como resultado da queda na arrecadação do imposto de renda individual e empresarial
quando a economia encolhia, o aumento do gasto e a redução da receita para
manter o tamanho da economia. Mesmo que não inteiramente feliz com o
insinuante keynesianismo, Ike estava pronto para afundar em gastos deficitários
durante as recessões.
Eisenhower gastou o dinheiro dos contribuintes como nenhum presidente em
tempos de paz antes dele, embora vencesse as objeções conservadoras fazendo
aprovar os gastos como essenciais à segurança nacional. A vasta rede de rodovias
interestaduais que começou a ser construída em 1956 — um exemplo perfeito
de projeto de infraestrutura keynesiano — foi chamado de programa “Rodovia
de Defesa Nacional” e vendido aos conservadores como forma de transportar
suprimentos no caso de emergência militar. A escalada da Guerra Fria foi
também um incentivo ao gasto com a defesa, não menos que quando a Rússia
mandou um satélite, Sputnik, ao espaço, em outubro de 1957. A corrida espacial
que se seguiu nos cinquenta anos seguintes elevaria o orçamento anual da NASA
a verdadeiramente astronômicos US$ 18,7 bilhões, com mais US$ 20 bilhões
gastos com os satélites e foguetes do Pentágono. “Estamos vivendo uma curiosa
espécie de militarismo keynesiano, no qual Marte correu para preencher o vácuo
da economia de mercado”, escreveu o historiador Richard Hofstadter. No final de sua presidência, Ike havia gastado mais com a defesa do que Roosevelt para vencer a Segunda Guerra Mundial.
Com tudo isso, havia um traço de pensamento hayekiano no discurso de
adeus de Eisenhower, que advertia contra corporações, ou companhias privadas,
em conluio com o governo. O remorso de Eisenhower era que os enormes gastos
com armas haviam levado ao “complexo industrial-militar”. “Não devemos
nunca deixar o peso dessa combinação colocar em perigo nossas liberdades ou
processos democráticos”, avisou.
O que foi mais bem lembrado dos anos 1950, entretanto, foi a prosperidade
interminável que se espalhou pelos Estados Unidos. Foi uma recompensa
perfeita para “a maior geração” por vencer a guerra contra o fascismo. O
consumismo era exuberante, com eletrodomésticos, refrigeradores e máquinas de
lavar preenchendo casas novas idealmente construídas, com um carro em cada
garagem. Ainda se olha para essa era com afeto, como um tempo de paz e
fartura. Na Grã-Bretanha, Harold Macmillan, um keynesiano, venceu a eleição
de 1959 com a frase, “vocês nunca viveram tão bem”.
Eisenhower foi o primeiro presidente a compreender completamente que
manipular a economia com medidas keynesianas dava ao candidato uma
vantagem eleitoral, embora fosse ocorrer uma reviravolta nessa história quando
chegasse a eleição presidencial de 1960. Contra um déficit de US$ 13 bilhões no
ano financeiro 1958/59, resultado de uma minirrecessão que desencadeou gastos
de assistência social e cortes na arrecadação de impostos, Ike passou as eleições de
meio de mandato em 1958 pressionando os eleitores, com uma ironia que não
passou em branco para keynesianos e conservadores, a não mandar “pessoas que
eu classificaria entre os gastadores” para Washington.
Richard Nixon
O eleitorado ignorou o aviso de Ike e fez retornar a maioria democrática para
ambas as Casas Legislativas. Em seu último ano de mandato, ansioso para não
deixar um enorme déficit como herança, Eisenhower tentou cortar o gasto
público. “Quero reduzir [o gasto] ao último centavo”, disse. Mas os democratas,
atentos, talvez, ao fato de que os cortes refreariam a economia no aquecimento
para a eleição presidencial que opunha a cria de Eisenhower, o queixudo Richard
Nixon, ao jovem campeão democrata John F. Kennedy, cortaram ainda mais
os gastos, levando a um surpreendente superávit de US$ 269 milhões. Ao
mesmo tempo, o FED tornou os empréstimos mais caros ao aumentar
fortemente a taxa de juros.
Uma nova recessão começou convenientemente em abril de 1960, e os
eleitores culparam os republicanos. Eles tinham os meios para levar as pessoas de
volta ao trabalho, cortar taxas de juros, reduzir impostos, manter a economia
efervescente, e tinham escolhido não agir. O fato de a inflação ter sido mantida
em 1,4% entre 1952 e 1960 contou pouco. Kennedy fez a campanha com o
slogan “Vamos pôr o país em movimento novamente”, e venceu — por um fio.
Um décimo de 1% dividiu as contagens dos dois candidatos concorrentes. Se
Eisenhower tivesse cedido uma fração, Nixon poderia ter vencido. Nixon se
queixaria muito nos anos seguintes de que Eisenhower impedira suas chances de
conquistar a Casa Branca na primeira eleição. Foi uma lição dura que todos os
presidentes subsequentes aprenderam: o sucesso na urna vinha de administrar a
economia para ajustar o ciclo de negócios ao ciclo de eleições de quatro anos.
Aqueles que ousassem “fazer a coisa certa” pelo déficit orçamentário estariam
condenados.
John F. Kennedy
Em John F. Kennedy, o descendente glamorosamente bonito do clã Kennedy, de Boston, os Estados Unidos elegeram um presidente que, pela primeira vez, admitiu abertamente que empregaria contramedidas keynesianas não meramente na base do ciclo de negócios, mas como uma ferramenta política geral para reforçar a produtividade da nação. Ele sabia pouco sobre economia, apesar de ter sido ensinado em Harvard por Galbraith. Kennedy uma vez confessou não ser capaz de lembrar a diferença entre política monetária e política fiscal — isto é, entre tributação e gastos estabelecidos pela administração e a regulação dos meios de pagamento e as taxas de juros determinadas pelo FED — e que podia lembrar-se de que o FED estava a cargo da política monetária apenas porque o sobrenome do seu presidente começava, como “money”, com um “M”. Kennedy cercou-se de keynesianos, o principal deles Galbraith, que escreveu o discurso da plataforma econômica de JFK. Quando Kennedy assumiu a presidência, Galbraith foi instalado no Edifício de Escritórios do Executivo com um bilhete de JFK: “Não me diga o que eu deveria fazer e sim o que devo dizer aos outros para fazer”. Kennedy nomeou secretário do Tesouro um republicano, C. Douglas Dillon, banqueiro de Wall Street, e, para presidente do FED, o cauteloso William McChesney Martin Jr., cujo papel definiu como o de “levar embora o jarro de ponche justamente quando a festa estiver começando” — isto é, frear a inflação que acompanhava o alto gasto público por meio do aumento das taxas de juros. Fora isso, Kennedy cercou-se de keynesianos. A princípio aproximou-se de Samuelson para convidá-lo a presidir o Conselho de Consultores Econômicos, depois sondou Galbraith, que optou por ser embaixador na Índia, antes de escolher Walter Heller, que apelidou a abordagem keynesiana da administração de “Nova Economia”. Heller, que se juntou no Conselho a
Kermit Gordon e James Tobin, foi convencido de que poderiam cumprir a promessa de pleno emprego — que definiram como uma taxa de desemprego de 4% — sem inflação.
O objetivo econômico de Galbraith era resolver o “hiato de crescimento”, a diferença entre o que a economia americana produzia quando deixada à iniciativa privada e a economia completamente produtiva que acreditava ser possível se a administração interviesse. Era pouco mais que a teoria do “desenvolvimento perdido” da Lei do Pleno Emprego com nova roupagem. Em seu primeiro discurso ao Congresso, Kennedy lamentou o fato de que “mais de um milhão e meio de desempregados — mais de um terço de todos os desempregados — poderiam ter tido trabalho. Mais vinte bilhões de dólares em renda pessoal poderiam ter sido ganhos em 1960. Os lucros das empresas
poderiam ter sido US$ 5 bilhões mais altos. Tudo isso poderia ser sido cumprido
com mão de obra prontamente disponível, materiais e máquinas — sem forçar a
capacidade produtiva e sem provocar inflação”. Ele soou como Keynes durante a
Depressão. Kennedy continuou, “uma economia desequilibrada não produz um orçamento equilibrado. Receitas mais baixas ganhas pelas famílias e corporações estão refletidas nas receitas mais baixas de impostos federais. A assistência aos rabalhadores desempregados e os custos de outras medidas para aliviar a crise conômica com certeza devem aumentar à medida que os negócios declinam.” Com a economia trabalhando à plena carga, as maiores receitas de impostos pagariam o déficit público. “O recuo da dívida com alto índice de emprego contribui para o crescimento econômico ao liberar as poupanças para investimento produtivo pela empresa privada”, declarou. Chamando Heller naquela noite, Kennedy confidenciou: “Eu lhes dei Heller e Keynes francamente e eles adoraram.” Não admira que Arthur M. Schlesinger Jr., o Boswell de JFK, descrevesse Kennedy como “o primeiro presidente inquestionavelmente
keynesiano”.
Apesar da retórica keynesiana, a estreita vitória sobre Nixon tornou Kennedy cauteloso. Ele temia a ala conservadora dos democratas, liderada pelo senador Harry F. Byrd Sr., da Virgínia, presidente do Comitê de Finanças do Senado, que permaneceu convictamente contrário aos déficits. Por dois anos, Kennedy fez pouco para estimular a economia além das enormes somas gastas com a defesa e a pesquisa espacial, ambas as quais, assim como Eisenhower, afirmava serem essenciais à segurança nacional, argumento que ganhou peso após a Crise dos Mísseis em Cuba em outubro de 1962. O gasto militar e espacial respondeu por três quartos do aumento de todos os gastos durante a presidência de Kennedy, e o financiamento espacial subiu ainda mais drasticamente, de US$ 1 bilhão em 1960 para US$ 6,8 bilhões quatro anos mais tarde. Mas, apesar dessa maciça injeção de dinheiro público, o desemprego continuou a crescer. Em 1961 e 1962, a taxa de desemprego permaneceu em mais de 5%. Quando foi chamado ante o Congresso, Keyserling declarou, para a fúria do presidente: “Eles estão mandando mandar um programa de pigmeu para fazer o trabalho de um gigante.”
Quando Kennedy finalmente agiu para criar pleno emprego, ele o fez de forma bastante inesperada. Discursando para figuras de Wall Street em dezembro de 1962, anunciou seu plano inesperado. Era keynesianismo, com uma mudança. “Não há necessidade de ficarmos satisfeitos com uma taxa de crescimento que mantém homens bons fora do trabalho e boa capacidade fora de uso… Para aumentar a demanda e erguer a economia, o papel mais útil do governo federal não é correr para um programa de aumentos excessivos nos gastos públicos, mas expandir os incentivos e oportunidades para gastos privados”, disse. “É uma verdade paradoxal que as alíquotas dos impostos estão demasiado altas hoje e as receitas tributárias baixas demais, e o modo mais
saudável de aumentar a receita no longo prazo é cortar as alíquotas agora.” Ele pressionou o Congresso a cortar a receita tributária em US$ 10 bilhões, apesar do déficit orçamentário. Quando Heller e Samuelson propuseram os cortes pela primeira vez, Kennedy ficou espantado. “Acabei de fazer campanha com uma plataforma de responsabilidade fiscal e orçamentos equilibrados e vocês vêm me dizer que a primeira medida que eu deveria tomar seria reduzir impostos?”, perguntou. Como Heller e Samuelson sabiam, a iniciativa seguia a proposta de Keynes em The Means to Prosperity, de 1933, que a redução de impostos injetaria dinheiro na economia para incentivar a demanda com tanta eficiência quanto o gasto público.
Alguns keynesianos — e quase todos os conservadores — contestaram a sabedoria do plano. Os keynesianos argumentaram que mais gasto federal era o meio mais seguro de dar um empurrão na economia, e os conservadores disseram que cortar impostos quando existia um déficit orçamentário era uma aposta temerária. Galbraith queixou-se de que cortar impostos resultava em uma forma “reacionária” de keynesianismo que não tratava tão objetivamente dos males públicos quanto o gasto direcionado. Além disso, as reduções de impostos eram inflacionárias. Heller, no entanto, não era nenhum apostador. Ele operava de acordo com as mais recentes ideias neokeynesianas que intentavam oferecer um meio mais previsível de administrar a economia. O protegido de Keynes, Roy Harrod, e Evsey Domar, de Harvard, tinham, em seu modelo HarrodDomar, ampliado a teoria do multiplicador de Kahn para prever como as reduções de impostos poderiam levar ao crescimento econômico. E o próprio Heller, trabalhando com seu colega Robert Solow, tomou conhecimento do trabalho de 1958 de um professor de economia da LSE, o neozelandês William Phillips, que postulou, em um gráfico apelidado de “curva de Phillips”, um trade-of entre reduzir o desemprego e elevar a inflação. Ao formular políticas segundo a curva de Phillips, Heller acreditava ter encontrado um modo de alcançar o pleno emprego sem provocar a alta dos preços.
A proposta de JFK de redução de impostos definhou no Senado, mas, após seu assassinato, em novembro de 1963, o presidente acidental Lyndon Johnson
prometeu solenemente dar continuidade ao legado de seu predecessor em todos
os detalhes.
Johnson não era economista, embora tivesse aguçado interesse nos conselhos que Heller e outros ofereciam. “Ele era particularmente fascinado, por exemplo, com o estado da economia e notável por sua capacidade de lembrar indicadores importantes e inquirir seus conselheiros econômicos sobre os vários indicadores”, recordou seu assistente especial Douglass Cater.
Johnson usou todos os truques de barganha que aprendera em décadas no Congresso e sua grande astúcia natural para se opor aos conservadores de ambos os partidos a fim de empurrar em 1964 a “aposta” de Kennedy de cortar impostos, diminuindo em geral as alíquotas do imposto de renda e reduzindo a alíquota mais alta de 91% para 65%. Em quatro anos ficou provado que os críticos da redução dos impostos tanto da esquerda quanto da direita estavam errados. A receita tributária federal subiu US$ 40 bilhões, enquanto o crescimento econômico aumentou de 5,8%, em 1964, para 6,4%, em 1965, e 6,6%, em 1966. A taxa de desemprego caiu de 5,2%, em 1964, para 4,5%, em 1965, e 2,9%, em 1966.
A inflação ficou abaixo de 2% em 1964 e 1965, subindo ligeiramente para 3,01% em l966. A aposta de Kennedy mostrou-se espetacularmente certa. Como a penicilina, o keynesianismo era a nova droga maravilhosa.
Em dezembro de 1965, a Revista Time deu seu laurel de “Homem do Ano” a John
Maynard Keynes. Keynes era o máximo, a Torre de Pisa, o sorriso da Mona Lisa.
“Hoje, pouco mais de vinte anos após sua morte, suas teorias exercem influência
primordial nas economias do mundo livre”, proclamou a Time. “Em Washington, os homens que formulam as políticas econômicas do país têm usado os princípios de Keynes não apenas para evitar os violentos ciclos dos dias de pré-guerra, como para produzir um crescimento econômico fenomenal e conquistar preços notavelmente estáveis.”
Como é que os economistas de Washington haviam feito isso? “Por sua adesão ao tema central de Keynes: a moderna economia capitalista não trabalha automaticamente com a máxima eficiência, mas pode ser elevada a esse nível pela intervenção e influência do governo.” Os odiosos “planejadores” de Hayek estavam sob controle. “Os economistas… sentam-se confiantemente junto a quase todo líder importante no governo, ou dos negócios, onde são crescentemente chamados a prever, planejar e decidir”, gorjeou a Time. O keynesianismo vencera até homens de negócios realistas e calculistas. “Eles
começaram a aceitar como verdadeiro que o governo intervirá para afastar a recessão ou sufocar a inflação [e] não mais pensar que gasto deficitário é imoral…
Nem, em talvez a maior mudança de todas, deixam de acreditar que o governo
sempre pagará toda a sua dívida, não menos que a General Motors ou a IBM
acham aconselhável pagar suas obrigações de longo prazo. Para aqueles com faro para o excesso de confiança, as afirmações extravagantes feitas como teorias de Keynes sugeriam que a ascendência keynesiana atingira sua maré alta.
Sustentado por uma economia em crescimento e florescentes receitas de impostos, Johnson começou a construir seu legado. Em maio de 1964, na Universidade de Michigan em Ann Arbor, declarou, “temos a oportunidade de caminhar não apenas em direção à sociedade rica e à sociedade poderosa, mas para cima, para a Grande Sociedade.” Prometeu acabar com a pobreza e a desigualdade racial, proteger a zona rural, educar cada uma das crianças e “reconstruir toda a região urbana dos Estados Unidos”. Armado com uma vitória por esmagadora maioria de votos sobre o ultraconservador Barry Goldwater na eleição de 1964, Johnson, um New Dealer ávido nos anos 1930, embarcou em uma farra de gasto público. Como o deputado de Arkansas Wilbur Mills lembrou, “Johnson sempre foi um gastador de certa forma diferente de Kennedy.
Ele achava que sempre se podia estimular a economia melhor com gasto público do que com gasto privado”. O programa de Johnson era mais radical do que qualquer coisa que Franklin Roosevelt tentara. Ele estendeu os direitos civis para os afro-americanos, embarcou em uma “guerra contra a pobreza” por meio da promoção social e instituiu o Medicare para dar atendimento médico a todos acima da idade de 65 anos e o Medicaid para aqueles que não podiam pagar seguro-saúde.
Os anos 1960 foram uma década de riqueza sem paralelo. Considerando que os anos 1950 tinham sido de ampla afluência, os 1960 tornaram o trabalhador médio confortavelmente próspero. Luxos como televisão em cores, viagem de avião e um segundo carro na garagem tornaram-se lugar-comum. O trabalho duro cedeu lugar ao aumento do lazer. Longe de introduzir um autoritarismo gradativo, como Hayek predissera, a nova riqueza que o planejamento keynesiano produziu ofereceu novas liberdades. Mulheres, afro-americanos e adolescentes começaram a usar sua recém-adquirida liberdade. A Revolução Keynesiana foi acompanhada de uma revolução que questionou os hábitos ociais de uma sociedade mais pobre, mais singular.
O milagre keynesiano continuou a trabalhar em prol de Johnson. A produtividade cresceu, o salário líquido real dobrou em comparação com o dos anos Eisenhower e o desemprego baixou de 4,5% em 1965 para uma média de 3,9% nos quatro anos subsequentes. Johnson aumentou a proporção dos gastos do orçamento federal em programas contra a pobreza de 4,7% em 1961 para 7,9% em 1969. Além de sua reformulação doméstica, Johnson intensificou a guerra contra os insurgentes comunistas no Vietnã do Sul. Com, finalmente, meio milhão de americanos postados no Vietnã, os gastos da defesa saltaram de US$ 49,5 bilhões em 1965 para imensos US$ 81,2 bilhões em 1969. O orçamento continuou em superávit, mas o superávit diminuía rápido, e a inflação começou a decolar, atingindo 4,2% em 1968. Uma sobretaxa de imposto sobre a renda em 1968 para deter a alta dos preços fez pouco para manter a economia equilibrada. Mas foi a guerra, não a economia, que derrubou Johnson, e sua partida significou o começo do fim da “Grande Sociedade”.
Richard Nixon chegou à Casa Branca em janeiro de 1969, sugerindo que estava pronto para virar a maré keynesiana. “Na década de 1960, o governo federal gastou mais US$ 57 bilhões do que arrecadou em impostos”, Nixon disse em seu discurso sobre o Estado da União em 1970. “Milhões de americanos são forçados a se endividar hoje porque o governo federal decidiu se endividar ontem. Precisamos equilibrar nosso déficit federal.”
Ele concluiu que o pleno emprego alimentado pelo déficit causara escassez de mão de obra que empurrava para cima salários e preços. Para combater a inflação, Nixon orientou sua equipe econômica de inclinação conservadora, entre eles, Paul McCracken, chefe do Conselho de Consultores Econômicos; Herbert Stein, um membro do Conselho que logo sucederia McCracken; e George Shultz, diretor do Escritório de Administração e Orçamento, a equilibrar o orçamento cortando fortemente os gastos.
Os cortes, no entanto, coincidiram com uma pequena recessão, na qual o desemprego subiu de 3,9% em janeiro de 1970 para 6,1% no fim do ano. Alinhado com a crença de que fora o desemprego que o levara a perder a corrida presidencial em 1960, Nixon mudou de rumo, dizendo que queria “um orçamento de pleno emprego, um orçamento projetado para se equilibrar se a economia operasse em seu máximo potencial. Ao gastar como se houvesse pleno emprego, ajudaremos a viabilizar o pleno emprego”. Ele propôs um orçamento expansionista para “estimular a economia e, por meio disso, abrir novas oportunidades de emprego para milhões”. Era keynesianismo puro, levando
Nixon, em janeiro de 1970, a declarar, “agora, sou um keynesiano na economia”. Como relembrou Stein, “chamar a si mesmo de keynesiano não atraiu para ele elogio algum dos economistas keynesianos, mas, de fato, levantou protestos entre republicanos indignados”.
Uma linha franca no discurso de Nixon sobre o Estado da União em 1970 traiu os cálculos por trás da mudança de opinião. “Reconheço a popularidade política de programas de dispêndio”, disse, “e particularmente em um ano eleitoral.” O presidente mais abertamente oportunista do pós-guerra, Nixon deixou que sua ambição empurrasse a economia menos no melhor interesse da nação que em seu próprio interesse para garantir a reeleição. Suas táticas keynesianas assegurariam que ele fosse, nas palavras de Stein, “desprezado igualmente por liberais e conservadores”. Milton Friedman, o conselheiro econômico de Nixon durante a campanha de 1968, concluiu: “Nixon foi o mais socialista dos presidentes dos Estados Unidos no século XX.”
O agente da corrida de Nixon em direção ao keynesianismo foi o exgovernador do Texas, o democrata John Connally, antes um confidente próximo de Johnson, a quem Nixon apontou secretário do Tesouro em dezembro de 1970. Em meio ao clamor de eleitores e legisladores para que a administração “fizesse alguma coisa” em relação à letargia econômica, com o presidente do Federal Reserve Arthur Burns na liderança, Nixon convocou uma cúpula de conselheiros em Camp David em junho de 1971 para discutir o caminho à frente. Ele os encontrou em desacordo. Stein pressionava por “uma política fiscal mais estimulante — um corte nos impostos ou um aumento dos gastos ou ambos”,
enquanto Shultz pressionava por cortes nos gastos e austeridade. Nixon concordou em não fazer nada, uma política conhecida como “os Quatro Nãos: não ao aumento de gastos; não à redução de impostos; não ao controle de preços e salário; e não à desvalorização do dólar”.
Em meses, no entanto, Nixon executou uma perfeita cambalhota para trás. Alinhado com o que chamou de “Nova Política Econômica”, aprovou a desvalorização do dólar, seguida da remoção do dólar do padrão-ouro; um estímulo financeiro de impostos mais baixos e aumento dos gastos que mergulhou o orçamento federal em um déficit de US$ 40 bilhões; empréstimos federais baratos para impedir que a companhia fabricante de aviões Lockheed quebrasse; e, em agosto de 1971, a proibição ao aumento de preços e salários. Mais tarde, o livre comércio foi abandonado e uma taxa de importação de 10% foi imposta. Foi uma reviravolta que levou até os keynesianos a ficarem perplexos. Uma parte importante do legado de Keynes, o sistema de Bretton Woods de moedas vinculadas ao dólar, e, através do dólar ao ouro, se foi em um instante. Mas o resto era excessivamente keynesiano. William Safire, o colunista conservador e redator dos discursos de Nixon em 1960 e 1968, invocou o fantasma de Karl Marx: “Partidários do laissez-faire de todo o mundo, uni-vos! Não tendes nada a perder exceto o vosso Keynes”.
Nixon atirou os fones de ouvido nele.
Nixon endossou um punhado de medidas intervencionistas para conjurar a prosperidade que sentia ser essencial para a reeleição. Quando um congressista
republicano irado se queixou, “vou ter que queimar um monte de discursos velhos denunciando o gasto deficitário”, o presidente replicou, ‘estou no mesmo barco’.” “Sempre havia a ideia de que, se de algum modo você tivesse [controle de preços e salários] apenas por pouco tempo, isso poria as coisas sob controle e, então, você poderia voltar [a permitir que preços e salários encontrassem seu preço de mercado]”, recordou Shultz. “Mas se constatou que é sempre muito mais fácil entrar em uma coisa como essa do que sair dela.” Qualquer possibilidade de Nixon ser o senhor de seu destino econômico recebeu um golpe mortal com o aumento quadruplicado dos preços da gasolina imposto pelo cartel árabe do petróleo, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1973-74, para castigar os Estados Unidos por rearmar Israel durante a Guerra do Yom Kippur. O resultado foram preços mais altos e crescimento econômico freado. Instrumentos tradicionais como a curva de Phillips não pareciam aplicar-se mais. Crescimento econômico mais baixo ou nenhum era acompanhado de inflação, em uma combinação até então julgada impossível, apelidada de “estagflação”. A idade de Keynes estava em seus estertores. A Era da Estagflação chegara.
Face a face com um oponente mais fraco, George McGovern, Nixon caminhou para uma esmagadora vitória nas urnas na eleição de 1972. Foi basicamente a invasão do quartel-general democrata no Hotel Watergate em Washington, D.C., e não seus saltos mortais na economia que detonaram a rápida partida de Nixon do Salão Oval em 1974. Mas a estagflação certamente levou ao fim seu infeliz sucessor, a ex-estrela de futebol americano da Universidade de Michigan Gerald Ford, que presidiu com taxas de inflação e desemprego não experimentadas desde a Grande Depressão. Um dos atos finais de Nixon foi apontar o ultraconservador Alan Greenspan para chefiar o Conselho de Consultores Econômicos. Greenspan havia resistido aos abrandamentos de Nixon durante anos e ficou feliz por não ser implicado na inversão de política que introduziu controles de preços e salários. Mas pouco pôde fazer para salvar Ford. Ele observava de longe enquanto o amável presidente era pressionado por um grupo barulhento de consultores em desacordo que mudavam súbita e completamente de uma suposta panaceia para outra.
Ford conquistou um breve acordo quando um Congresso democrata concordou em limitar gastos e cortar impostos em US$ 9 bilhões; os dados econômicos começaram a se mover na direção certa. A inflação caiu de 9,2% em 1975 para 4,88% no mês da eleição presidencial em 1976. O desemprego caiu também, de um pico de 9% em maio de 1975 para 7,8% em novembro de Mas a reviravolta chegou tarde demais para salvar Ford. A estagflação havia cobrado seu primeiro escalpo.
Ficou demonstrado que a crença dos keynesianos de que era impossível que desemprego e inflação subissem simultaneamente era falsa e solapou a confiança em grande parte do resto de suas teorias. A certeza que Keynes trouxera para a administração da economia foi despedaçada. “A estagflação foi o fim do keynesianismo ingênuo”, observou Milton Friedman. Os economistas, antes oniscientes, buscavam explicações. “Um consenso notável sobre economia política emergiu em Washington — uma convergência de atitudes entre a esquerda liberal e a direita conservadora”, recordou Greenspan. “Subitamente, todos buscavam meios de conter a inflação, cortar o gasto deficitário, reduzir as regulações e estimular o investimento.”
Mas o velho pensamento era difícil de abandonar. O sempre sorridente fazendeiro de amendoins da Georgia e ex-tripulante de submarino Jimmy Carter chegou à Casa Branca com a promessa keynesiana de retornar aos Estados Unidos de pleno emprego. Em 1978, aprovou a Lei de Pleno Emprego Humphrey-Hawkins, reprise do Projeto de Lei do Pleno Emprego de 1945, determinando que o presidente e o FED conservassem a demanda agregada alta o suficiente para manter o pleno emprego. Em aparente contradição, a lei ambém orientava o presidente e o Congresso a equilibrar tanto o orçamento quanto a balança comercial. Com Jimmy Carter comandando as marés, os legisladores provavam sua impotência. Autoilusão e maiorias no Congresso não eram suficientes para derrotar a estagflação. Nem Carter era a pessoa capaz de levar os Estados Unidos em uma nova e dolorosa direção, como ficou evidente em sua mais extravagante aventura de falar verdades intragáveis, o discurso do “mal-estar”, sugerindo que o país estava sofrendo de uma “crise que ataca o próprio coração e alma e o espírito de nossa vontade social”.
O fato de a estagflação estar paralisando o resto dos líderes do mundo, como o infeliz premiê britânico James Callaghan, era de pouco consolo para Carter, para quem o tempo se esgotava rapidamente. Em outubro de 1978, ele anunciou medidas anti-inflacionárias, incluindo uma nova era de austeridade, uma fogueira de regulações dos negócios, isenções fiscais para a indústria, um congelamento da contratação federal e uma promessa de cortar pela metade o déficit público. Cada uma dessas medidas levaria tempo para funcionar e, nesse meio-tempo, o ciclo eleitoral se revelava muito mais curto que os espaços entre as recessões.
Carter recebeu um golpe mortal em janeiro de 1979, quando a revolução islâmica do Irã desencadeou um tumulto no Oriente Médio. O presidente foi pego em uma segunda crise do petróleo que rivalizou com o aumento da OPEP em 1973, resultando em severa redução do fornecimento de gasolina. Ele impôs controles de preços sobre a gasolina, levando a grandes filas nos postos de abastecimento. Apontou para presidente do FED um democrata vitalício, Paul Volcker, com a missão de elevar as taxas de juros para deter a demanda que se pensava ser a raiz da inflação. O fracasso de Carter em controlar os preços a tempo da eleição de novembro de 1980 foi um presente para seu rival republicano, Ronald Reagan, vistoso, afável, de olhos cintilantes, que perguntava aos eleitores: “Vocês estão em situação melhor que há quatro anos atrás?” A resposta foi um retumbante não.
Não era apenas Carter que estava em julgamento, como também John Maynard Keynes. Trinta e quatro anos após a morte do grande homem e mais de quarenta após a publicação de seu General Theory, o keynesianismo parecia ter percorrido todo o seu caminho. Assim como o uso excessivo de um remédio milagroso, os ministradores desse remédio pareciam ter aplicado demais o elixir e com demasiada frequência. Era tempo de uma reavaliação radical da teoria econômica que Hayek e seus aliados vinham tramando havia muito tempo.
Como Hayek entrou no cenário e em que proporção
Ronald Reagan curiosamente entrou no cenário, ou no imaginário do eleitorado como conservador pelo suporte que deu a Barry Goldwater, que perdeu estrondosamente para Lyndon B. Johnson, que era vice e sucedeu John Kennedy quando este foi assassinado.
Reagan talvez tivesse sido o maior comunicador que jamais sentou na Presidência e, embora o critiquem como não sendo intelectual, ele não apenas teve bastante contato com a leitura de Keynes e Hayek como tambem tinha também a imagem de que conhecia Hayek e Milton Friedman pessoalmente. Ele também lera o livro de Friedman Capitalismo e Liberdade, que era uma ressonância de Friedman sobre o famoso Caminho para a Servidão de Hayek, que Friedman endeusava.
Reagan pelos seus extraordinários poderes de comunicador, conseguiu entrar no imaginário do eleitor americano como o campeão da redução da interferência do estado, que era a marca registrada de todos os governos anteriores desde F.D. Roosevelt. Apesar disto, teve que esperar sua vez para disputar a presidência, embora tenha disputado a candidatura com Nixon em 1968. A explicação para isto seria uma suposta traição de Barrry Goldwater, que durante os 8 anos (1981-1989) que Reagan presidiu os Estados Unidos, nunca foi convidado para nada.
Reagan também foi ajudado pela alta da inflação, que de 5,7% em 1970 passou para 11% em 74 e um péssimo desempenho da economia, que marcou um tipo de, senão fim, pelo menos desencanto com o keynesianismo.
Hayek, que era relativamente desconhecido entre os economistas, ocupando um segundo plano, foi surpreendentemente premiado pelo Prêmio Nobel de Economia de 1974, junto com Gunnar Myrdal, um keynesiano que não poupou criticas ao Comitê do Prêmio Nobel por ter dado o premio também a Hayek. Hayek, por sua vez, criticou o Prêmio como algo absurdo que não deveria existir.
Isto porém não impediu que tanto os conservadores como os liberais americanos que decidiram dar boas vindas ao louvor a Hayek como prova de que seu trabalho e suas idéias valiam a pena.
Quando Hayek recebeu o Prêmio Nobel, ele, no seu melhor estilo de controvérsia, repetiu as advertências que fizera 30 anos antes no seu livro “O Caminho para a Servidão”, especialmente sua afirmação de que “A crença keynesiana de que havia uma solução pra todo problema econômico só tinha conspirado para tornar a inflação e o desemprego piores”. Ninguem sabe porque ele ficou quieto na época quando Hayek reinava soberano.
Dois anos depois, em 1976, foi a vez de Milton Friedman ganhar o Prêmio Nobel de Economia, que homenageou Hayek.
Margareth Tatcher foi lider do Partido Conservador de 1975 a 1990, virou Primeira Ministra em 1979 e ocupou o cargo até 1990.
Embora ele se declarasse keynesiana no início, assumiu completamente as idéias de Hayek e sua associação com Ronald Reagan é lendária e mereceu um livro escrito pelo mesmo escritor que estamos nos apoiando, Nicholas Wapshott, intitulado “Ronald Reagan And Margaret Thatcher”, que detalha como estilos e personalidades tão opostas puderam se dar tão bem.
Tatcher diminuiu o tamanho do setor público, reduziu a oferta da moeda, cortou impostos, reduziu a regulamentação das empresas e pagou a dívida pública, vendendo ativos do Estado num processo que ficou famoso e intitulado “Privatização“.
Puro Hayek com traços de Milton Friedman. Ela convidou Friedman para um jantar com ela e seu partido e o resultado foi que Friedman experimentou suas soluções monetaristas na Grã Bretanha. Foi a primeira grande economia a fazê-lo. Não deu muito certo inicialmente por erros que Friedman apontou e foram um incentivo para Reagan na sua disputa eleitoral de 1980, com seu slogan hayekiano: “podemos tirar o governo de nossas costas, de nossos bolsos”, aliado com uma redução de impostos, que ficou conhecida como Reaganomics, um pouco de mistura de Hayek com Keynes, sendo a famosa “curva de Laffer“, que estava por trás da redução dos impostos, segundo o próprio, uma invenção de Keynes.
Reagan surrou Jimmy Carter e Friedman foi convidado a integrar o novo conselho Consultivo de Política Econômica (Economic Policy advisory Bord – EPAB)
Foi aplicado o mesmo remédio que Tatcher aplicou na Grã Bretanha que causou igualmente uma profunda recessão que durou 16 meses em 1981-82, porém a inflação caiu drasticamente de 11,8% em 1981 para 3,7% em 1983.
Curiosamente, as reduções de impostos de Reagan provaram ser tão eficientes quanto as de Kennedy (aplicadas por Lyndon Johnson), com a taxa mais alta de 70%, descendo de um patamar de 90% (Sim, brasileiros, é quanto se paga de Imposto de Renda nos EUA para ganhos muito altos), provocando um índice de arrecadação real saltando de 2,1% nos 4 anos anteriores para 8,6%. O Produto Interno Bruto subiu de 4,6% para 5,1% no mesmo período e a taxa de desemprego caiu de 5,8% em jan de 1962 para 3,8% em Dezembro de 1966.
Reagan aplicou cortes ainda maiores, sendo 25% menos para todo mundo e para os que mais ganhavam baixou de 70% em 1981 para 28% em 1988. Os impostos corporativos caíram de 28% para 20%.
Os resultados foram impressionantes, a economia que crescera entre 1978 a 1982 a uma taxa de 0,9% em termos reais, subiu entre 1983 e 1986 para 4,8%. O índice de desemprego ficou em 5,3%.
Veio a consequência, o déficit orçamentário cresceu, o que levou Reagan a rescindir várias isenções fiscais para as rendas mais altas, e o imposto de renda atingiu a renda recorde de 37 bilhões de dólares, ou seja, 0,8% do Produto Interno Bruto, o mair desde o pós guerra. Apesar dos monetaristas cantarem vitória, um importante elemento Friedman nao gostava de mencionar, Reagan irrigou a economia com dinheiro dos contribuintes a uma taxa sem precedentes.
Era a guerra fria, os gastos cm defesa decolaram de 267 bilhões de dólares em 1980 para 393 bilhões de dólares em 1988.
O déficit público subiu de um terço do Produto Interno Bruto em 1980 para mais da metade do PIB em fins de 1988, ou seja de 900 bilhões de dólares para 2,8 trilhões de dólares.
Quando Reagan entrou na Casa Branca, os Estados Unidos eram o maior credor do mundo, quando ele saiu, eram os maiores devedores, com uma dívida a emprestadores estrangeiros de cerca de 400 bilhões de dólares.
Reagan brincava dando de ombros para o déficit, gracejando: “O déficit orçamentário é grande o suficiente para cuidar de si mesmo.”
Embora os keynesianos em sua maioria considerem a Reaganomics pouco mais que um blefe, um truque politico por tras da retórica de Hayek de reduzir o tamanho do governo, ela deslanchou um chuveiro de gastos públicos na defesa que estimulou a demanda agregada e o crescimento econômico e são considerados anos de progresso e fartura.
Robert Solow, premio Nobel de economia do MIT e John K Galbraith mais ou menos concordam que esta economia propicia da época Reagan foi feita por gente que criticava Keynes, e não o entendia, o que redundou num keynesianismo anônimo involuntário.
As duas décadas seguintes viram crescer em popularidade a advertência de Hayek
sobre o potencial para tirania na intervenção do governo. O colapso da União Soviética, em 1991, encerrou 75 anos de experimento comunista criminoso ao apagar o livre mercado da vida dos russos. Os líderes dos novos governos democráticos, como Václav Havel e Václav Klaus, primeiros presidentes da República Tcheca, e Leszek Balcerowicz, vice-premiê polonês, louvavam Hayek como inspiração em seus dias mais tenebrosos. Com o recuo das ideias keynesianas e a volta às ideias do livre mercado e a queda do marxismo leninismo, Hayek viveu tempo suficiente para se sentir vingado. Observando os acontecimentos se desenrolarem, observou: “Eu disse isso a vocês.” Ele morreu aos 92 anos, em 23 de março de 1992, em Freiburg im Breisgau, Alemanha.
Mas Keynes continuava rondando como um fantasma os governos, especialmente dos EUA e da Inglaterra. A conclusão dos envolvidos era que tinha que ser aplicado um coquetel Hayek-Keynes e a questão tinha mais definição na Academia, sendo que os defensores de Hayek, eram chamados de “economistas de Água Doce” porque se agrupavam perto dos Grandes Lagos e os defensores de Keynes de “economistas de água salgada“, porque estavam mais na Costa Leste e na Costa Oeste. O debate era o mesmo que sempre existira entre Keynes e Hayek, apenas que agora, Hayek estava por cima e Keynes estava por baixo.
Anunciava-se o “fim da história econômica“, e o dragão cíclico de booms e recessões parecia vencido. Milton Friedman foi reconhecido como a melhor explicação sobre o mistério da Grande Depressão e o período ficou conhecido como o de “Grande Moderação”, com uma politica bi partidária chamada de Friedmanista e o responsavel por isto foi Alan Greenspan.
Greenspan era visto como uma mistura de feiticeiro e jogador de pôquer, sendo conhecido como do tipo “percentage player”, podendo ser resumida sua filosofia ultra cautelosa da seguinte maneira, como ele mesmo dizia: “Sempre me faço a pergunta: quais serão os custos para a economia se estivermos errados? Se não existe risco adverso, pode-se tentar a política que se quer. Mas, se o custo do fracasso é
potencialmente muito grande, a política deve ser evitada, mesmo que a probabilidade de sucesso seja cinquenta-cinquenta, porque não se pode aceitar o custo do fracasso.”
George H.W.Bush (pai)
George H.W.Bush (pai), ainda como vice de Reagan foi eleito em 1979, mantendo basicamente o curso que Reagan estabelecera, mas sem o mesmo sucesso. Bush, (pai),entrou de cabeça em uma tempestade econômica. Os 92 meses de boom
no governo de Reagan, o mais longo desde a prosperidade Kennedy/Johnson dos
anos 1960 e o segundo mais longo período de expansão econômica desde 1854,
chegaram a um fim abrupto em 1990, deixando Bush pendurado no pincel. A
inflação subiu para 6,1%, no fim do ano, e o desemprego se elevou para 6,7%,
em 1991, e 7,4%, em 1992. O déficit orçamentário dobrou de US$ 152 bilhões,
em 1989, para US$ 290 bilhões, em 1992.
Obrigado a fazer um acordo com um Congresso democrata, o compromisso
de Bush foi elevar impostos em lugar de cortar gastos, uma decisão que solapou
sua credibilidade com muitos republicanos, incluindo Friedman. Ainda irritado
pela rejeição cheia de desdém de Bush, Friedman foi sarcástico em relação à
reversão de Bush, repudiando a política econômica da administração como
“Reaganomics de marcha a ré” e “economia uduv” (sendo “uduv” a palavra vudu
de trás para a frente). “O Sr. Bush pode ter convicções fortes em áreas como
política externa. Ele, claramente, não tem nenhuma em política econômica”,
atacou Friedman.
Bill Clinton
Este quadro, associado com desastrosa campanha de Ross Perot, acabou por eleger Bill Clinton, cuja mantra de campanha era: “É a economia, estúpido.” Clinton defendia um orçamento equilibrado e não queria ser identificado como um liberal keynesiano. Atento ao fato de que Reagan deixara uma divida nacional de 3 (três) trilhões de dólares, Clinton advogou uma “terceira via”, misturando medidas conservadoras com politicas sociais progressistas.
Em 1993, Clinton herdou um déficit federal de US$ 290 bilhões, e o Escritório Orçamentário do Congresso advertiu que poderia chegar a US$ 455 bilhões em 2000. Como recordou Greenspan, “a dura verdade era que Reagan havia pedido emprestado a Clinton, e Clinton estava tendo que pagar”.
Clinton prometeu cortar o déficit pela metade e, segundo Greenspan, estava resolvido a cumprir a promessa. Com esse fim, Clinton indicou conselheiros econômicos que relutavam em aumentar impostos e gastos. E foi feliz também. Beneficiou-se dos “dividendos da paz”, o poder de cortar gastos com a defesa com o fim da Guerra Fria, e presidiu durante o advento da era digital, em que os computadores aumentaram a eficiência das empresas. Em 1997, Clinton conseguiu aprovar a Lei do Orçamento Equilibrado, em sua maior parte cortando custos de Medicare para equilibrar o orçamento em 2002.
No verão de 2000, anunciou um superávit nas contas-correntes orçamentárias pelo terceiro ano consecutivo, US$ 69 bilhões no ano financeiro de 1998, US$ 124 bilhões em 1999 e uma estimativa de, no mínimo, US$ 230 bilhões em 2000, o primeiro superávit em três anos consecutivos desde 1947-49, quando Harry Truman era presidente. A dívida tinha sido reduzida em US$ 360 bilhões em três anos, com US$ 223 bilhões pagos em 2000, a maior redução do déficit em um só ano da história dos Estados Unidos. A essa taxa, os US$ 5,7 trilhões da dívida nacional estariam completamente pagos em 2012. Greenspan saudou Clinton como “o melhor presidente republicano que tivemos em muito tempo” e “tão longe do clássico cobra e gasta liberal quando se poderia estar e, assim mesmo, ser um democrata”
Ele cortou regulamentações que estavam em vigência desde F D Roosevelt, para Bancos, seguradoras e companhias financeiras e pela primeira vez em sessenta anos, bancos de investimento tiveram permissão para fundir-se com bancos depositários.
George W Bush (filho).
Uma série de batalhas legais de um mês de duração levou à altamente controversa decisão de 5 a 4 da Suprema Corte Bush v. Gore, que encerrou a recontagem. Terminada a recontagem, Bush venceu a Flórida por 537 votos, uma margem de 0,009%.
Quando ele assumiu, o horizonte era promissor, ele herdou um superávit de 128 bilhões de dólares no ano fiscal 2000-1, com perspectiva de subir para 280 bilhões de dólares para o ano seguinte.
O Escritório Orçamentário do Congresso calculou que o superávit chegaria a 5,6 trilhões de dólares ao longo da década seguinte, dos quais tinham que ser deduzidos 3,1 trilhões já comprometidos com Seguridade Social e Medicare. O Escritório, diante disso, esperava que os 3,4 trilhões de dólares da dívida nacional fossem pagos deixando em caixa 500 bilhões de dólares. Com a maioria republicana em ambas as Casas do Congresso Bush (filho) ficou livre para anunciar um corte nos impostos de 1,35 trilhão de dólares até 2010, com 400 bilhões entrando em vigência imediatamente, ou seja, 600 dólares por família americana.
Porém, uma recessão começou a se formar, resultado do colapso inflado das ompanhias de Internet e o efeito da redução de impostos, com a resultante da concorrência maior provocada pela globalização.
O pior estava por vir.
Em Julho a arrecadação começou a cair e o índice Standard & Poors despencou 20%, fazendo a expectativa de Superavit bruxulear como fogo fátuo.
Em cima disso, aconteceram os ataques do Al Qaeda em Setembro de 2011. Osama Bin Laden queria instaurar o terror nos Estados Unidos, na expectativa de fazer o mesmo que fizera com a União Soviética, que quase foi à bancarrota, com seu Vietnã, que foi o Afeganistão.
Diante disso, Bush (filho), no melhor estilo keynesiano, aprovou novos e maciços gastos federais para fortalecer as fronteiras, melhorar a segurança dos aeroportos e, de quebra, foram melhorados vários locais com fins políticos, como a construção da Estação de bombeiros no Maine.
Greenspan reduziu a taxa de juros para 1% para injetar dinheiro rapido na economia pois era preferivel inflação por isso do que uma recessão inspirada pelo terrorismo.
Não funcionou direito e a expectativa de aumentar o superávit do ano anterior de 128 bilhões de dólares para 280, viraram um déficit orçamentário de 158 bilhões de dólares. Em setembro de 2002, a lei que obrigava o Reforço Orçamentário estar combinado com Impostos para pagá-lo caducou e não foi renovada.
Bush (filho) agiu como se a expectativa de superávit fosse ocorrer e aumentou os gastos de defesa, aumentou as opções de remédios do Medicare e em cima disso, reduziu impostos.
O espírito de Reagan continuava vivo e forte, e a alegação que “Reagan havia provado de que déficits não importam” foi invocada.
O Partido Republicano e seus eleitores, na teoria queriam Small Government, mas na prática não somente não tinham interesse, como avançaram fortemente na direção oposta, keynesiana.
Veio a conta e em 2004 o déficit orçamentário estava em 400 bilhões de dólares.
Em novembro de 2006, o Partido Republicano perdeu a maioria em ambas as Casas. A derrota, segundo Dick Armey, líder da maioria na Câmara de 1995 a 2002, assinalou o fim da revolução hayekiana do small government de 1994. Rememorando o Contrato com os Estados Unidos, ele escreveu: “Nossa questão básica naqueles anos iniciais era: como podemos reformar o governo e restituir dinheiro e poder para o povo americano? Finalmente, os inovadores políticos e o ‘Espírito de 94’ foram amplamente substituídos por burocratas políticos impulsionados por uma visão estreita. Sua questão se tornou: como conservamos o poder político?” A visão idealista de Hayek fora derrotada pela política da velha escola.
Somando-se a isto, o valor duvidoso de dívidas empacotadas com hipotecas subprime de imóveis residenciais, perderam o valor completamente, paralisando os bancos e o nervosismo dos banqueiros assustou os clientes e provocou uma corrida que não se via desde os meados do seculo XIX, sendo que, por ex., o Norther Rock, um banco de poupança e investimento que havia tomado emprestado extensivamente no mercado aberto, não conseguiu crédito suficiente para cobrir as retiradas dos clientes e o mesmo poderia acontecer com os outros bancos. O pânico se espalhou dos dois lados do Atlântico. O laissez faire de Hayek para o caso dos bancos revelou-se um experimento desastroso. Greesnspan, no seu melhor estilo, disse ao Congresso quando chamado para explicar: “Cometi um erro ao presumir que os interesses próprios das organizações, especificamente bancos e outros, eram tais que elas seriam mais capazes de proteger seus próprios acionistas e suas participações nas empresas… Fiquei
chocado.” As observações de Greenspan ecoaram as de Keynes oitenta anos antes, ao comentar a Grande Depressão. “Nós nos envolvemos em uma desordem colossal ao estragar uma máquina delicada cujo funcionamento não compreendemos”, escreveu Keynes. “O resultado é que nossas possibilidades de riqueza podem ir para o lixo por algum tempo — talvez por um longo tempo.
“Durante cerca de trinta anos a reputação de Keynes definhou”, escreveu Peter Clarke, biográfo de Keynes. “Em cerca de trinta dias, o defunto economista foi redescoberto e reabilitado.” Perguntado, em 2000, se a Era de Keynes se perdera para sempre, John Kenneth Galbraith declarou: “Se fôssemos ter outra recessão, o que é possível, iríamos novamente usar parte do superávit bruto do governo para criar emprego e pôr a economia em movimento novamente.”
Ele pouco imaginava o quão profética seria sua observação. Em fevereiro de 2008, Bush pediu ao Congresso um estímulo econômico keynesiano de US$ 168 bilhões em abatimentos do imposto de renda. O Tesouro comprou US$ 700 bilhões de bancos com “ativos problemáticos”, um eufemismo para dívidas podres. O Estado, o gastador de última instância, interveio no atacado para impedir que a economia deslizasse para o vazio. Na Grã-Bretanha, os bancos foram resgatados em troca de ações; nos Estados Unidos, os banqueiros receberam dinheiro diretamente, para que o presidente não fosse acusado de “socialismo”.
As taxas de juros foram reduzidas à metade entre setembro de 2007 e abril de 2008, enormes empréstimos de curto prazo foram feitos aos bancos e o FED comprou dívidas hipotecárias podres. Em março de 2008, o Bear Stearns, líder em empréstimos hipotecários subprime, foi vendido por preço de liquidação para o JPMorgan Chase. No mês de setembro seguinte, Lehman Brothers foi à falência
Em outubro de 2008, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, recebeu US$ 700 bilhões do Congresso para resgatar outras companhias que estavam falindo. Em 16 de dezembro de 2008, o FED reduziu para zero as taxas de juros. Ações similares foram adotadas por governos e bancos centrais em todo o mundo.
Keynes estava de volta, com ímpeto. A revista Time saudou a volta do velho com a manchete “A recuperação de Keynes”. “O que estamos vendo agora”, escreveu o jornalista Justin Fox, “é o medo de estarmos nos dirigindo para um colapso econômico, causado pelo colapso da demanda, causado por um colapso do crédito. Confrontados com essa ameaça, os governos aparentemente não podem evitar voltar-se para o remédio formulado por Keynes durante os anos negros do início da década de trinta: estimular a demanda, gastando muito mais do que arrecadam, preferivelmente, mas não necessariamente, em obras públicas úteis, como rodovias e escolas.” Robert Lucas, o ganhador do Prêmio Nobel que fez mais do que a maioria dos economistas de Chicago para enterrar Keynes, declarou: “Imagino que todo mundo é um keynesiano em uma trincheira.”Enquanto a ressurgida maré keynesiana engolfava o Tesouro e o FED, e os
economistas de água salgada ganhavam novamente prestígio e controle, os economistas de água doce ficavam visivelmente silenciosos. “Pensei que todos
concordássemos em que o keynesianismo não funciona”, foi a queixa isolada de Chris Edwards, do conservador Cato Institute. “Mas agora, com o novo pacote de estímulo ante o Congresso, todos esses keynesianos emergiram e, me pergunto, onde estão todos os teóricos que se opõem ao sistema keynesiano”.
Barack Obama
Em fevereiro de 2009, o presidente Barack Obama pressionou o Congresso a aprovar um projeto de lei de US$ 787 bilhões em estímulos fiscais e gastos com seguro-desemprego e infraestrutura.
As velhas discussões Keynes-Hayek irromperam novamente, como se não tivessem passados 80 anos.
O fato diante dos olhos era que havia necessidade de injetar dinheiro na economia o mais rápido possivel, embora grande parte do pacote de Obama fosse backloaded, isto é, com dinheiro pingando na economia meses depois, às vezes, anos. Em lugar dos projetos requisitados pela administração que poderiam ser imediatamente executados e se traduziriam rapidamente em emprego para os desempregados, os legisladores frequentemente propunham projetos de longo prazo em seus próprios estados que teriam pouco efeito imediato na economia.
A noção de que o que era bom para a General Motors era bom para os Estados Unidos foi tomada literalmente. Os americanos, temerosos por seus empregos, adiavam a decisão de comprar um carro novo, deixando três das quatro maiores companhias automobilísticas domésticas, e sua longa lista de fornecedores, à beira da bancarrota. Elas receberam dinheiro do Tesouro em troca de participação acionária.
Em novembro de 2008, líderes mundiais reunidos no encontro do G-20 em Washington acordaram uma política comum para evitar a Grande Depressão que se aproximava. Prometeram cortar as taxas de juros e permitir que o gasto público superasse a arrecadação de impostos. Na época em que se reuniram em Pittsburgh, em setembro de 2009, a perspectiva de uma recessão prolongada parecia ter sido evitada. No início do verão de 2010, o clima entre os líderes mundiais tinha mudado. Nem bem os remédios keynesianos começaram a funcionar, os consumidores se arrependeram. A escala da dívida nacional ameaçava as moedas, enquanto credores temiam que os governos não pagassem.
O alto endividamento da periclitante economia grega forçou a União Europeia, em maio de 2010, a reunir, apressadamente, um empréstimo conjunto para impedir o governo grego de renegar suas dívidas. Em novembro de 2010, a Irlanda também foi resgatada, seguida, em abril de 2011, por Portugal. Dúvidas semelhantes sobre a dívida soberana foram expressas acerca da economia de Itália, Espanha, Bélgica, até França. Permitir que Grécia, Irlanda e Portugal falissem teria ameaçado a viabilidade da moeda da União Europeia, o euro, que, em troca, solaparia o movimento rumo à integração política da Europa. Em junho de 2010, no encontro do G-20 em Toronto, Canadá, os mesmos líderes mundiais que apoiaram soluções keynesianas apenas dezoito meses antes insistiram na redução acentuada do gasto do governo e no pagamento da dívida nacional. Sua reviravolta foi como dar aspirina a alguém com dor de cabeça, e depois imediatamente fazer lavagem estomacal.
Dois anos depois que o pacote de estímulo de Obama foi aprovado, havia pouca evidência de que tivesse dado certo. A taxa de desemprego subiu para 9,8% em novembro de 2010, com mais de 15 milhões sem trabalho. A execução de hipoteca de casas continuou a passos rápidos. Opositores do estímulo, ncluindo todos os republicanos no Congresso, afirmavam que ele não estava funcionando, que a recuperação estava sendo impedida pelas “expectativas racionais” daqueles que acreditavam que os gastos e os empréstimos federais extras poderiam levar a impostos mais altos e condições menos indulgentes para os negócios. Eles queriam que o déficit federal fosse reduzido o quanto antes.
Paul Krugman, o laureado Prêmio Nobel de economia do New York Times, lembrou àqueles que desejavam a volta imediata a uma política de redução de impostos e gastos que eles estavam convidando a uma recessão dupla, exatamente como Franklin Roosevelt havia instigado a Recessão de Roosevelt de 1937.
Em breve, keynesianos como Krugman, que sempre duvidaram de que o estímulo fosse grande e rápido o bastante, exigiam uma segunda e maior injeção de dinheiro e crédito na economia. “Estamos agora, temo, nos estágios iniciais de uma terceira depressão”, escreveu. “Em todo o mundo… os governos estão obcecados com a inflação, quando a ameaça real é a deflação, pregando a necessidade de apertar o cinto, quando o problema real é o gasto inadequado.”
Quando os democratas perderam as eleições de meio de mandato em novembro de 2010, eleições dominadas por exigências do “Tea Party” de que os empréstimos do governo fossem suspensos e que o déficit fosse pago sem adiamento, o governo Obama se viu administrando uma economia severamente limitada pela visão da liderança republicana, que insistia na perpetuação dos cortes de impostos de Bush para os ricos, assim como para a classe média, e tinha na mira o seguro-saúde universal compulsório do governo. As reduções de impostos e a extensão na mesma medida do seguro-desemprego forneceram mais um estímulo keynesiano, que acrescentou US$ 858 bilhões em dois anos ao déficit federal. Enquanto isso, o FED continuava a comprar de volta títulos do governo para manter baixas as taxas de juros de longo prazo, levando à queda do valor do dólar. Aumentar a oferta de moeda da nação quando as empresas já
estavam inundadas de dinheiro apenas confirmou o aviso de Marriner Eccles, o
presidente do FED de Franklin D Roosevelt, sobre a impotência da política
monetária como estímulo: “Não se pode empurrar uma corda”, isto é, por mais
dinheiro que se ponha à disposição, não se pode forçar os empresários a fazer investimentos.
Keynes ou Hayek?
Ou seja, intervenção do Estado ou laissez faire? Qual a melhor compreensão, de cima para baixo ou de baixo para cima?
Keynes buscava a cura para o desemprego em massa. Seu remédio era aumentar a demanda agregada total. Ele sugeriu diversos caminhos: usando meios monetários, baixando taxas de juros e canalizando dinheiro para a economia, por meio de isenções fiscais e obras públicas.
Com suas prescrições monetárias, Friedman refinou Keynes, mas não o substituiu. “O [monetarismo] beneficiou-se muito do trabalho de Keynes”, escreveu Friedman em 1970. “Se Keynes fosse vivo hoje, estaria, sem dúvida, à frente da contrarrevolução [monetarista].”
Como Friedman colocou: “Todos usamos muitos dos detalhes analíticos da General Theory; todos aceitamos, no mínimo, uma grande parte da mudança de pauta para análise e pesquisa que a General Theory introduziu.”
A posição de Friedman oferece pistas de como aferir quem venceu a competição
Keynes-Hayek. Na economia, Friedman estava mais próximo de Keynes e,
frequentemente, elogiava a economia de Keynes, em particular A Tract on Monetary Reform. Hayek admitia que “o monetarismo de Milton e o keynesianismo têm mais em comum um com o outro do que tenho com ambos”. Quando se tratava de política, no entanto, Friedman estava mais próximo de Hayek. Keynes acreditava que a intervenção do Estado era um meio adequado de melhorar a vida dos cidadãos. Friedman cncordava com Hayek em que, sempre que intervinha na economia, o Estado era um empecilho à
habilidade do livre mercado de criar riqueza. Friedman aprovava a redução de impostos não para injetar dinheiro na economia, como Keynes recomendava, mas porque acreditava que o governo encolheria como resultado. A esse respeito, Hayek deu passos largos. As tiranias comunistas finalmente caíram, estimuladas por aqueles que se inspiraram nos sentimentos antiestatizantes de Hayek.
Enquanto celebrava o fim do comunismo soviético, Hayek sentiu que havia sido derrotado por Keynes na ampla introdução do planejamento econômico.
De acordo com Friedman, falando em 2000, “não existe dúvida sobre quem venceu a discussão intelectual… A opinião intelectual do mundo de hoje é muito menos favorável aos planejamentos centrais e controles do que era em 1947. O que é mais duvidoso é quem venceu a discussão prática. O mundo é mais socialista hoje do que era em 1947. O gasto governamental em quase todos os países do Ocidente é mais alto hoje do que era em 1947… A regulação governamental das empresas é maior”.
Hayek adotava a posição absolutista de que, como ninguém podia saber o que
estava na mente de cada membro da sociedade e que o melhor indicador de suas
necessidades conflitantes eram os preços de mercado, todas as tentativas de dirigir a economia estavam fora de lugar. Com o tempo, seu fracasso em atrair apoio durante a hegemonia keynesiana pareceu levá-lo a defender sua posição ad absurdum. Finalmente, Hayek queria que o poder do Estado se retirasse para uma cidadela mínima e queria ver até o último elemento de uma economia, até mesmo a emissão de moeda, em mãos privadas, porque desafiava o monopólio do Estado dos poderes de criar moeda. Isso o colocou em oposição direta a Friedman, que, embora desejasse que o governo fosse minimizado, acreditava que uma economia deveria ser administrada para proporcionar crescimento firme. O instrumento escolhido por Friedman, a política monetária, requeria um banco central administrado pelo Estado. Hayek acreditava que a emissão de moeda era a chave para encerrar o ciclo de negócios, preocupação comum dele e de Keynes. “Acredito que, se não fosse pela interferência do governo no sistema
monetário, não teríamos flutuações industriais ou períodos de depressão”, declarou Hayek. “Se a questão da emissão de moeda for colocada nas mãos de empresas cujo negócio depende de seu sucesso em manter estável a moeda que emitem, a situação muda completamente”.
Os dois líderes que promoveram as ideias de Hayek, Ronald Reagan e Margareth Thatcher, avançaram no caminho de encolher o Estado para permitir que o livre empreendedorismo florescesse. Em seu nonagésimo aniversário, Thatcher escreveu para Hayek: “Faz dez anos esta semana desde que recebi o privilégio de me tornar Primeira-Ministra… A liderança e a inspiração que o seu trabalho e seu pensamento nos deram foram absolutamente cruciais; e temos uma grande dívida com você.” Thatcher premiou Hayek com o título de nobreza Companion of Honour, uma das maiores distinções britânicas, como recompensa. O cumprimento não foi inteiramente retribuído. Entrevistado pela filha adotiva de Mises, Gita Sereny, em 1985, Hayek estava ansioso para destacar que “naturalmente, não é verdade que eu aconselhe a Sra. Thatcher”.
O desapontamento de Hayek ficou evidente também quando um redator da Forbes lhe pediu, em 1989, que avaliasse as realizações de Reagan e Thatcher. Ele achou as políticas deles “tão razoáveis quanto poderiam ser na época. Eles são modestos em suas ambições”. Nem Thatcher nem Reagan deram mais que a partida para alcançar o derradeiro objetivo de Hayek de substituir o Estado pela empresa privada. Dos dois, foi Thatcher quem avançou mais, embora tivesse começado de uma base inferior, tendo herdado uma economia mista madura para a reforma. A retórica hayekiana de Reagan sempre superava sua vontade de reduzir o tamanho do Estado, como atesta o extraordinário aumento do orçamento federal durante seus anos na presidência.
Hayek escreveu The Road to Serfdom em tempo de guerra, quando a luta
contra o despotismo era mais aguda, descrevendo o livro quarenta anos depois
como “um tratado para os tempos”. Mais de sessenta anos após, entretanto, o
livro é citado sem que se levem em consideração as condições especiais em que
foi escrito. Até aqueles de quem se poderia esperar que concordassem com
Hayek rapidamente admitem que as opiniões apocalípticas dele não fazem
justiça à benignidade de governos social-democratas no pós-guerra europeu. O
pensador neoconservador Adam Wolfson concluiu que, “as mais modernas
democracias têm vivido em Estados do bem-estar social mais extensivos e
altamente socializados que os Estados Unidos, sem, de alguma forma, chegar ‘ao
cume’, de onde caem no totalitarismo. Não existe, na verdade, nenhuma estrada
para a servidão por meio do Estado do bem-estar.”
Paul Samuelson, o principal propagandista do keynesianismo, foi, como se esperava, mais vigoroso. “Como escrevi em 2007, a Suécia e outros lugares escandinavos… são os mais ‘socialísticos’ pela definição crua de Hayek. Onde estão seus campos de câmaras
de gás?”, perguntou. “Os elementos mais vis subiram ao poder? Quando pesquisas são compiladas sobre ‘infelicidade mensurável’ são lugares como Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega que melhor exemplificam a escravidão? Não. Claro que não.” Mesmo pelas próprias medidas de Hayek do bem-estar, crescimento econômico, as sociais-democracias superaram seus vizinhos de livre mercado.
Hayek não abria mão desse ponto. Ele acreditava que a Suécia conquistara o sucesso econômico apesar, e não por causa, de seu grande setor estatal e que o tédio que sentia entre os suecos era um sintoma de sua perda de liberdade.
“Suécia e Suíça são dois países que escaparam dos danos [sic] de duas guerras e se
tornaram depositários de uma grande parte do capital da Europa”, sugeriu. Mas
essa riqueza amplamente compartilhada e a ausência de desemprego vieram a um
alto preço. “Existe, talvez, mais descontentamento social [pelo qual ele, talvez,
quisesse se referir aos suicídios] na Suécia que em quase qualquer outro país em
que estive. O sentimento padrão de que a vida não vale realmente a pena ser vivida é muito forte na Suécia.”
A rejeição de Hayek da opinião entre muitos intelectuais de que países socialdemocratas, como a Suécia, eram mais civilizados que as economias de livre
mercado levou a que ele fosse amplamente ridicularizado. Foi tratado com desdém por figuras importantes tanto da direita quanto da esquerda. Em 1967, quando a maré hayekiana atingira seu ponto mais baixo, Anthony Quinton, o filósofo favorito de Thatcher, o chamou de “magnífico dinossauro”, enquanto o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm o descreveu como “profeta da selva”. “Durante grande parte de sua vida, suas posições econômicas e políticas estiveram completamente fora de sincronia com as da intelligentsia”, escreveu o editor de suas obras reunidas, Bruce Caldwell. “Ele atacou o socialismo quando este era considerado o “meio-termo”, quando aparentemente todas as pessoas de boa consciência tinham simpatias socialistas… Durante grande parte do século, Hayek foi alvo do ridículo, desprezo, ou, talvez pior, para um homem de ideias,da indiferença.”
Hayek ainda é amplamente considerado inaceitável, particularmente na Europa. Entretanto, há movimentos para lhe dar o que merece desde que recebeu o Nobel de economia, em 1974. Em 2003, o verbete de 250 palavras da Enciclopédia Britânica sobre Hayek foi substituído por um relato mais longo, mais generoso. Foi incluído no programa de estudos sociais de Harvard, fonte americana do keynesianismo. Mas, apesar do patrocínio do comentarista político Glenn Beck, que devotou tempo considerável a popularizar a mensagem de The Road to Serfdom, Hayek permanece uma figura pouco conhecida, paradoxalmente tanto um herói para aqueles que se definem como marginalizados quanto o economista predileto das grandes empresas.
Na visão de Hayek, o governo deveria ser deixado a administrar apenas os elementos da sociedade que não poderiam ser administrados por mais ninguém, como a defesa. Entre os serviços que Hayek acreditava que deveriam ser privatizados, estavam “todos aqueles da educação ao transporte e comunicações, incluindo correios, telégrafo, telefone e serviços de transmissão, todos os assim chamados de ‘utilidade pública’, os vários seguros ‘sociais’ e, acima de tudo, a emissão de moeda”.
Impressionantemente, e talvez surpreendentemente para aqueles que subscrevem os objetivos gerais de Hayek hoje, ele defendia seguro-saúde universal e seguro-desemprego obrigatórios, reforçados, se não diretamente fornecidos, pelo Estado, e acreditava que deveria haver livre movimentação de trabalhadores pelas fronteiras nacionais.
Hayek, nunca um conservador, se tornara um libertário, mas não propôs um estado de anarquia. Em lugar do governo, sugeriu que empresas privadas desempenhassem deveres comunitários. “Não havia necessidade de o governo central decidir quem deveria ser autorizado a prestar serviços diferentes, e é altamente indesejável que possua poderes mandatórios para fazer isso.” Em vez disso, antevia “corporações quase comerciais competindo por cidadãos”.
Aqueles que não gostassem do que a companhia oferecesse deveriam mudar-se
para outro lugar.
Ele concluiu que a democracia representativa com demasiada frequência oferecia uma “tirania da maioria” que reduzia as liberdades individuais e impunha custos desnecessários. Insistia em que “o livre mercado é o único mecanismo jamais descoberto para conquistar a democracia participativa”. À luz desse derradeiro objetivo, substituir um governo representativo, com todos os seus grupos de interesse, lobbies e partidos, por uma sociedade privatizada, não é, então, de surpreender que Hayek tenha sentido que Reagan e Thatcher quase não avançaram.
Reagan e Thatcher administraram com sucesso a democracia representativa. Expor a opinião total de Hayek os deixaria abertos à acusação eleitoralmente venenosa de que eram antidemocráticos. Outros políticos do pós-guerra estavam preocupados, principalmente, em assegurar que a todos fosse dada uma chance de exercer as liberdades prometidas para eles. Enquanto Hayek se concentrava em uma utopia abstrata, os progressistas venciam batalhas pelos direitos civis afro-americanos, mulheres, homossexuais e incapacitados físicos. Muitas campanhas políticas, como o movimento ambientalista e a mudança cultural sísmica que emanou dos costumes mudados dos anos 1960, não foram inspiradas de maneira alguma por noções de governança. Para muitos, o materialismo heroico de Hayek não parecia nada a não ser heroico.
Mas o debate público lentamente se movimentou em favor de Hayek. No Chile dos anos 1970, Hayek foi invocado para conter o comunismo. Enquanto a maioria da Europa Ocidental manteve a economia mista e o Estado do bemestar social, na Grã-Bretanha o thatcherismo ofereceu um novo rumo, apesar das luzes “Hayek light” que o governo neotrabalhista de Tony Blair abraçou. Foi nos Estados Unidos, então, onde o livre empreendedorismo sempre foi um credo nacional, que as crenças de Hayek mais progrediram, em parte porque a nação foi fundada na noção de que os indivíduos deveriam ser livres de governo.
Gerações de americanos praticaram a filosofia de Hayek muito antes de ele articulá-la. A crença no mercado sem restrições era importante para os cavalheiros do século XVIII que escreveram a Constituição. No entanto, a democracia representativa ao longo do tempo transgrediu as liberdades absolutas.
Como diz o cientista político conservador Adam Wolfson, citando Alexis de Tocqueville, “o big government está, como esteve, escrito no DNA político da democracia”.
Como a Europa trata o assunto?
Para eles, porém, não era tanto escolher entre Keynes e Hayek como encontrar um meio de evitar uma crise financeira mais adiante para assegurar a sobrevivência do euro e
manter o ritmo da integração política europeia. Liderados pelos alemães, que vêm pagando desproporcionalmente há sessenta anos para assegurar o sucesso da União Europeia, os europeus ficaram temerosos de que as crises da dívida soberana na Grécia, Irlanda, em Portugal e outros lugares poderiam acarretar uma corrida irreversível contra o euro. Os alemães agiram, mas à custa das medidas keynesianas que haviam minorado os piores efeitos da crise financeira de 2008. O preço de prosseguir com a integração política europeia foram um maior aperto na oferta de moeda e cortes profundos nos gastos públicos.
A Grã-Bretanha também sofreu pressão para impor cortes ou enfrentar corrida contra a libra. Depois da eleição geral de 2010, em que nenhum partido obteve maioria, a coalizão do governo de David Cameron, entre Conservadores e Democratas Liberais, anunciou um experimento sem precedentes para reduzir o setor público britânico: cortes de 10% em gastos identificados no primeiro ano; uma meta de 25% de cortes ao fim do Parlamento de cinco anos. A desculpa para abraçar uma solução hayekiana não foi perdida pelos Conservadores britânicos, como o secretário de relações exteriores William Hague e o secretário do Trabalho e Previdência Iain Duncan Smith, que abrigavam havia muito o sonho de completar a revolução de Thatcher. O restabelecimento da Segunda Era de Keynes teve vida curta, mas a invocação do nome de Hayek permaneceu tão desagregadora que poucos daqueles que defendiam um Estado menor poderiam ser levados a expressar abertamente sua inspiração. Nem teriam reconhecido sua dívida com Keynes por salvar o capitalismo duas vezes em
oitenta anos.